Uma fogueira gigante levou-nos à vila de Penamacor no mês de Dezembro.

Primeira parte: concentram-se os tratores

Penamacor fica no centro de Portugal, junto à fronteira com Espanha. No GPS, marcámos: Nossa Senhora do Incenso. Percorremos 275 km desde Lisboa e chegámos ao nosso destino, a cerca de 2 km da vila beirã, por volta das 11 horas da noite. Lá fora, o termómetro marcava 4°C. Ao longo de uma estrada de terra batida, já havia diversos carros estacionados. À volta, tudo escuro…

– Olha só para as estrelas!

Passámos por uma capela e por muitos tratores carregados de lenha até chegarmos a um amplo largo cheio de pessoas à volta de uma fogueira. Furei entre elas para me aproximar do fogo e aí permaneci fascinada até parar de tremer.

Depois fomos andar: primeiro, em direção a um círculo que se formou no meio da multidão; depois, em direção a um longo varandim suportado por colunas de pedra, cruzando-nos das duas vezes com pessoas de todas as idades.

O círculo era formado por homens e mulheres que espontaneamente tocavam concertina e adufe enquanto cantavam músicas tradicionais que quem estava à volta conhecia e acompanhava. No meio, dançavam alguns pares alegremente.

No varandim, encontrámos várias mesas corridas onde havia travessas de arroz-doce e papas de carolo, além de um panelão cheio de feijoada, que simpáticas senhoras serviam a quem lhes estendia o prato.

– Fomos nós que cozinhámos tudo. É para oferecer. A quem vem de fora também. Querem provar?

Ao fundo, sobre uma barraquinha de bebidas, lia-se: “Malta de 99”.

É assim o dia 7 de Dezembro em Penamacor, data em que todos os anos se cortam vários sobreiros e se reúnem os tratores carregados de lenha no recinto de Nossa Senhora do Incenso, em preparação para a grande fogueira (ainda não a que encontrámos nesta noite).

Só se cortam os sobreiros doentes e em final de vida, com a condição de todos os anos se plantarem ainda mais, mesmo que quem o faça saiba que não viverá para ver as árvores plantadas no seu estado adulto.

Antigamente, era tudo feito com picaretas e machados e transportado em carros de bois pelos rapazes antes de cumprirem o serviço militar obrigatório. O madeiro era, assim, um símbolo da passagem para a vida adulta.

Hoje são os rapazes e as raparigas que têm 20 anos de idade (este ano a malta nascida em 1999) os responsáveis pela tarefa, dispondo do auxílio de máquinas e tratores para o efeito. Os familiares e o resto da população também ajudam. De resto, festejam. As senhoras que nos ofereceram comida, por exemplo, são as mães da malta de 99. Afinal, esta é uma tradição que tem mantido a comunidade de Penamacor unida apesar do frio e das agruras da interioridade, enchendo as pessoas de alegria.

Segunda parte: deixem passar o maior de Portugal

No dia seguinte, 8 de Dezembro, chegámos ao centro de Penamacor já passava das 13h00, a hora prevista para passarem os tratores carregados de lenha. Enquanto esperávamos, metemos conversa com uma senhora de 93 anos que encontrámos na rua. Contou-nos que antigamente os rapazes chegavam sempre às 13h00, porque a missa acabava a essa hora. Explicou-nos também que eram os patrões que lhes davam madeira velha para fazerem a fogueira. Como os jovens queriam que fosse maior do que a do ano anterior, roubavam mais algumas árvores, passando a noite toda no campo se fosse preciso, mesmo que estivesse a chover. Confirmou-nos ainda que dantes era tudo feito com a força dos rapazes e que agora as mulheres também participam. “Eu acho bem” – disse-nos – “e são elas que vêm à frente do cortejo”. Vieram, de facto, empoleiradas na pá de um caterpillar. Reconhecemo-las logo: eram as mães da malta de 99!

Que festa! As ruas de Penamacor encheram-se de pessoas, fazendo lembrar tempos em que não se falava sequer de desertificação nem do envelhecimento da população. Houve música, bombos, trompetes, gaitas-de-foles e concertinas.

Ao longo da rua principal, contámos 20 tratores carregados de toneladas de lenha. No topo, vinham alguns jovens empoleirados cantando: “Oh, madeirinho, lá lá lá; oh madeirinho” e “Deixem passar o maior de Portugal, o maior de Portugal”. Alguns atiravam laranjas, o fruto da época, como manda a tradição.

Cá em baixo, nas ruas, algumas pessoas abriram os portões das suas casas e outras montaram tascas improvisadas para venderem os seus produtos. Além disso, não é que voltámos a encontrar as mães da malta, desta vez a oferecer filhoses às pessoas com quem se cruzavam?

Ao longo da tarde e já ao anoitecer, os troncos de grande dimensão foram sendo empilhados no adro da Igreja Matriz. Um dos momentos altos foi quando descarregaram um sobreiro com uma raíz grandiosa, tombando o atrelado que o carregava, para júbilo dos espectadores.

Em suma, a tradição voltou a cumprir-se. Estava construído o maior madeiro de Portugal – um verdadeiro motivo de orgulho para a população de Penamacor.

Terceira parte: ateia-se a fogueira

O madeiro está pronto. Porém, a fogueira gigante de que tínhamos ido à procura só será ateada no dia 23 de Dezembro. À semelhança do meu Minho, onde não se arruma a mesa no final da consoada para o Menino Jesus ter o que comer durante a noite, na Beira Baixa acendem-se fogueiras nos adros das igrejas para aquecer o filho de Deus.

Além de ser a vegetação natural dominante na paisagem, o sobreiro arde mais lentamente e durante mais tempo do que as outras árvores. Por isso, e por ser tão grande, o madeiro de Penamacor permanecerá ativo durante vários dias após o Natal, aquecendo não só Jesus, mas mantendo também vivas as chamas da tradição e do espírito de comunidade, bem como as memórias para a vida toda do povo de Penamacor.

O madeiro de Penamacor em 2018

Guia Prático

A tradição do madeiro na Beira Baixa

Na Beira Baixa, costuma dizer-se que “Natal não é Natal sem madeiro”. Apesar de o de Penamacor ser o maior de Portugal, esta tradição mantém-se viva também em Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Proença-a-Nova e Vila Velha de Ródão. Aí também se corta e transporta o madeiro nos dias 7 e 8 de Dezembro, ainda que com ligeiras variações. Em Proença-a-Velha, por exemplo, transportam-se os troncos de sobreiro não em tratores, mas numa carroça que várias pessoas puxam por uma longa corda. Pelo caminho, vão parando para agradecer a todos os que ajudaram nesse ano, enumerando-os um a um.

Quanto à fogueira, em Penamacor ela é ateada no dia 23 de Dezembro enquanto nas restantes povoações é no dia 24.

Onde (gostámos de) comer em Penamacor

Restaurante 2 Pinheiros | Situado na entrada de Penamacor, sentimo-nos como na sala-de-jantar de uma família, a provar pratos e sobremesas caseiros. Apesar de termos gostado do borrego que comemos ao almoço, gostámos ainda mais das carnes grelhadas do jantar, especialmente do coelho.

Onde (gostámos de) dormir em Penamacor

Casas da Penha | Situadas na parte mais alta e histórica de Penanacor, junto à Torre do Relógio, estas casas resultaram do restauro de habitações em ruínas, harmonizando os elementos originais das mesmas com os confortos modernos. Gostámos especialmente da vista a partir do terraço, dos penedos a espreitar em certas divisões e do facto de cada casa homenagear os homens e as mulheres que, na penha ou no “cimo de vila”, exerciam profissões centenárias. A nossa, por exemplo, era a Casa do Cesteiro.

Sofia à varanda de uma das Casas da Penha

Vista sobre Penamacor a partir das Casas da Penha

O que visitar em Penamacor

  • Castelo de Penamacor ou Torre de Menagem;
  • Antiga Casa da Câmara, assente sobre a antiga Porta da Vila;
  • Torre do Relógio e muralha medieval;
  • Pelourinho;
  • Igreja da Misericórdia, com um magnífico portal manuelino;
  • Igreja Matriz ou de São Tiago, o principal templo de Penamacor, no adro da qual é construído o madeiro;
  • Convento de Santo António , cuja igreja apresenta uma extraordinária decoração em talha dourada. É possível visitar o convento e testemunhar o dia-a-dia de dois monges que ainda aí vivem.

Antiga Porta da Vila de Penamacor

Torre do Relógio

Castelo/ Torre de Menagem de Penamacor

Escadaria que leva ao Jardim da República

Outros eventos em Penamacor

  • Em Dezembro | Penamacor transforma-se na Vila Madeiro onde, além dos eventos que descrevemos anteriormente, se realizam diversas atividades como concertos natalícios, exposições, workshops e uma feira de Natal, onde é possível conhecer pessoas como o Sr. Armando Vinagre;
  • No final de Janeiro | Festa das Varas do Fumeiro;
  • No final de Julho | Feira Terras de Lince.

Presépio feito com materiais naturais na Feira de Natal de Penamacor

O que visitar nas proximidades

Vista do miradouro de Penamacor

Se desejar saber mais sobre o que visitar ou fazer na Beira Baixa, pode descarregar a APP (aplicação móvel) “Visit Beira Baixa” no Google Play ou Apple Store e ter dicas sempre à mão no seu telemóvel.

O Viagens à Solta visitou Penamacor, no fim-de-semana de 7 e 8 de Dezembro de 2019, a convite da CIMBB – Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa.

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2 Comentários

  1. Fotografias fantásticas! Como faz para a fotografia ser de maior dimensão e com essa qualidade de imagem?

  2. Penamacor terra do madeiro? Lollll. Só desde que o Domingos Torrão do Pedrógão de S. Pedro levou para lá a tradição….a tradição era do Pedrógão de S. Pedro….

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