Os Picos da Europa, um dos parques nacionais mais visitados de Espanha, ficam no norte do país vizinho, a cerca de 800 km de Lisboa, 500 do Porto. Como o nome indica, são montanhas rochosas que se erguem em picos para além das nuvens. Nessas montanhas, existem desfiladeiros profundos, rios de águas límpidas, prados frescos onde se ouve o chocalhar de vacas à solta, lagos espelhados de céu, casas com sardinheiras a enfeitar as janelas, assim como alguns dos queijos mais saborosos de Espanha.

Uma das melhores formas de explorar a região é a pé, havendo diversos percursos bem assinalados. Quem nunca visitou os Picos da Europa, sentir-se-á provavelmente assoberbado com a quantidade de trilhos existentes e indeciso na hora da escolha. Há, no entanto, um percurso acessível a qualquer pessoa (mesmo sem experiência em caminhadas) que é obrigatório pela sua singularidade e paisagens inesquecíveis: a Rota do Cares, em pleno parque nacional.

O nome deriva do rio Cares, uma presença constante ao longo dos 24 km do trajeto (ida e volta) que separam os povoados de Caín e Poncebos, nas províncias de León e Astúrias, respetivamente. Se quiser, poderá fazer apenas metade do percurso, mas terá de providenciar transporte a partir de uma destas localidades, separadas por 100 km de estrada (aproximadamente 3 horas de viagem).

Provavelmente está a questionar-se: 24 km? Conseguirei andar tanto a pé? Com excepção de 2 km de subida no início do trilho do lado de Poncebos, a rota é plana e faz-se ao longo de um caminho estreito de terra batida que serpenteia ao lado de uma garganta profunda – a Garganta Divina – no fundo da qual corre o Cares como um fio de água.

A maior parte das vezes, andará entre uma parede de pedra rija de um lado e encostas escarpadas abertas sobre o abismo do outro, mas também passará por algumas pontes, miradouros naturais e túneis escavados na pedra. As vistas vertiginosas sobre desfiladeiros profundos, entre montanhas com uma altitude de mais de 2000 metros, são fabulosas.

A totalidade do percurso (ida e volta) demora 6/7 horas, podendo descansar e comer nas localidades de Caín ou Poncebos, dependendo do local onde iniciou a rota.

Nós partimos de Caín, um pequeno e acolhedor povoado, rodeado por montanhas imensas, à qual se acede por uma estrada estreita cheia de curvas que, por si só, é uma aventura.

Chegámos à hora de almoço e, seguindo a pé as indicações para a “Ruta del Cares”, fomos ter a uma ruela onde se situavam dois ou três restaurantes. Arriscámos e entrámos no primeiro, onde nos sentámos numa esplanada com mesas compridas e bancos corridos. Que boa escolha! O entrecosto de vitela grelhado estava uma delícia e encheu-nos de força e boa disposição para a caminhada.

Enquanto comíamos, observávamos deliciados os caminhantes que partiam cheios de energia e os que chegavam a Caín: uns quebrados e visivelmente cansados, outros aliviados por terem superado o desafio, outros contentes por irem almoçar ou simplesmente por estarem ali, tudo naquela lengalenga bem-disposta e barulhenta dos espanhóis.

Depois do alomoço, seguiu-se a nossa vez de pôr os pés ao caminho, dando início àquela que viria a ser uma das melhores caminhadas que fizemos.

Já recuperada de uma queda aparatosa em Pontevedra, Galiza, que me deixou a mancar durante alguns dias, deixámos Caín, galinhas e gatos para trás. Primeiro, passámos por campos repletos de verde ao lado do rio Cares, depois atravessámos uma ponte, até o trilho – cada vez mais estreito – se começar a cavar na pedra e as paredes escarpadas se sucederem umas às outras.

Provando que a rota é para todos, cruzámo-nos com crianças, jovens, pessoas de meia-idade, outras mais velhas, famílias inteiras, pessoas magras, outras fortes, que nos cumprimentavam com um Holla! entusiasmado.

Ao longo dos caminhos vertiginosos também passámos por umas criaturas curiosas que nos observavam impávidas em cima de penhascos, com um olhar dócil e sem qualquer medo das alturas.

Painéis explicativos fizeram-nos ainda refletir sobre a história da Rota do Cares e admirar os cerca de 500 homens (11 dos quais perderam a vida) que, entre 1916 e 1921, abriram um caminho na pedra para construir um canal de alimentação da central hidroelétrica de Camarmeña-Poncebos. Os melhoramentos desse caminho, entre 1945 e 1950, resultaram no trilho que hoje é percorrido por milhares de pessoas todos os anos.

O clima nos Picos é bastante instável e apanhámos alguns aguaceiros durante a caminhada, pelo que é aconselhável levar um impermeável. No regresso a Caín, as nuvens adensaram-se e o céu ficou mais escuro. Os chuveiros tornaram-se mais frequentes, o que nos obrigou a acelerar o passo a um terço do final. Até que, quando já estávamos na zona dos prados junto dos quais corre o Cares, desabou sobre nós uma chuva fortíssima, que nos obrigou a fazer o último quilómetro até Caín a correr.

Encharcados, já sem forças para correr mais, entrámos no primeiro hotel que nos apareceu e tomámos então, de impulso, uma decisão que viria a ficar guardada para sempre nas nossas memórias: não iríamos embora de carro nessa noite. Ficaríamos a dormir naquele povoado isolado mas acolhedor, no coração dos Picos da Europa. E assim foi. Disseram-nos que havia quartos vagos, tomámos um banho de água quente e descemos para o restaurante.

Sentados na esplanada, a comer uma tábua de queijos das Astúrias, rodeados pela beleza agreste das montanhas, a ver a chuva a cair, ainda hoje dizemos um ao outro, quando estamos fartos da rotina do dia-a-dia, que queremos voltar a Caín.

Guia prático para fazer a Rota do Cares

Não esquecer de levar

  • Bom calçado para caminhar, de preferência botas (para suportar as pedras que salpicam a rota e não derrapar);
  • Chapéu de sol (com excepção dos túneis, não há sombras ao longo do caminho);
  • Protetor solar;
  • Água;
  • Algo para comer (por exemplo, barritas energéticas ou fruta); 
  • Impermeável para a chuva;
  • Agasalho para o frio.

Melhor época do ano para fazer a rota

  • Verão (chove menos);
  • Evitar, no entanto, o mês de Agosto e fins-de-semana, quando há muitos caminhantes.

Se gostou deste artigo, pode deixar um comentário e seguir o Facebook e o Instagram do Viagens à Solta. A si não custa nada e a nós motivar-nos-á a partilhar mais experiências de viagem.

Mais artigos sobre os Picos da Europa:

3 Comentários

  1. Durante os meses de julho e agosto existe um serviço de transporte com autocarros entre Cangas de Onís e Caín, e entre Poncebos e Cangas de Onís. Isso permite fazer o percurso mais curto, de só 12 km, sem ter de voltar. O autocarro deixa os passageiros ao começo da rota e apanha aos caminhantes no fim do caminho. O preço é muito baixo: 12 euros ida e volta.

    Aguardo uma nova visita.

    http://www.cangasdeonis.net
    http://www.cangasdeonisycovadonga.com
    http://www.todoportugal.blogspot.com

  2. Obrigado pelas sugestões Francisco. Temos de voltar sim, já temos saudades 🙂

  3. Fiz este percurso em finais de Agosto de 2016, no itenerário de Poncebos a Caim. O regresso foi de autocarro de Cain a Cangas de Onix e continuamos depois de Cangas de Onix a Poncebos. Regressei de autocarro porque o meu companheiro, pessoa com 108 kg e diabético chegou a Cain já fragilizado, caso contrario faria a caminhada de retorno. Faço todos os anos Maia -Fátima , sem qualquer esforço. Foram as melhores férias que fiz em toda a minha vida..e só não volto a fazê-lo porque os médicos este ano diagnosticaram-me umas deslocações das cartilagens no joelho direito, proibindo-me de fazer as caminhadas que tanto gosto. É um destino de férias a não perder por todos quanto adoram a natureza em todo o seu esplendor conjugando com o prazer de caminhar.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *