Ponte de Lima é a vila mais antiga de Portugal e, para mim, uma das mais bonitas do meu país. Visitei-a muitas vezes quando vivia em Braga e a ela regresso frequentemente para relembrar tempos antigos e criar novas memórias.

A vila percorre-se facilmente a pé. Por isso, não se preocupem com mapas e com os “melhores locais” a visitar. Caminhem devagar, reparando nos pormenores.

O rio que atravessa a localidade – e que lhe deu o nome – chama-se Lima. A ponte é do séc. XIV e, na sua continuação, há uma ponte romana com 2000 anos, em que quase ninguém repara, mas agora já sabem que existe e não vos passará despercebida.

É da ponte medieval que se tem uma das melhores vistas sobre o centro histórico e vale a pena atravessá-la a pé. Nessa altura, hão-de reparar numas estátuas: na margem esquerda, estão uns soldados romanos e, na direita, um cavaleiro. Vou-vos contar a sua história. Reza a lenda que, no ano 135 a.C., as hostes romanas chegaram ao rio Lima. Nessa altura, acharam-no tão bonito que temeram estar perante o rio Lethes (o lendário rio do Esquecimento) que, de tão belo, os levaria a esquecer a sua vida passada. Para não perderem as suas memórias, os soldados recusaram-se a atravessá-lo. Só o comandante passou e, chegando à outra margem, chamou cada um pelo seu nome, provando-lhes, desse modo, que não se tratava do temido rio.

Soldados romanos em Ponte de Lima

Na verdade, hoje em dia podemos é reavivar as nossas memórias na margem direita do Lima. Numa casa do século XIX, pintada de cor-de-rosa, fica o Museu do Brinquedo Português que conta a história do brinquedo no nosso país, desde finais do séc. XIX até 1986. Vemos baldinhos de praia, bonecas, carrinhos, piões, comboios, soldadinhos de chumbo, instrumentos musicais, uma cidade em miniatura. Tantos brinquedos: de madeira, de pasta de papel, de folha-de-flandres e, mais recentemente, de plástico. Percebemos a evolução do brinquedo português e recordámos a nossa infância.

Do outro lado do edifício, funciona o Albergue de Peregrinos. É aí que passam a noite os caminhantes com mochilas às costas que se vêem pela vila. Dirigem-se a Santiago de Compostela, no país vizinho, seguindo o Caminho Português de Santiago.

Bonecas no Museu do Brinquedo Português
Estação de comboios em miniatura no Museu do Brinquedo Português

Ainda na margem direita do rio, podemos visitar o Parque do Arnado. De entrada livre, está dividido em quatro jardins: Romano, Barroco, da Renascença e um labirinto. É também aí que, todos os anos, de Maio a Outubro, se realiza o Festival Internacional dos Jardins. Concorrem 12 jardins de 8 países diferentes e, no final, as pessoas votam no seu preferido. Com ou sem festival, a antiga quinta do Arado proporciona um belo passeio.

Antes de regressarmos à ponte, ainda passámos por uma capelinha arredondada de pedra: é a Capela do Anjo da Guarda, construída para a proteger.

Tríptico com pormenores de Ponte de Lima
Jardim do Arnado

Voltámos a atravessar o rio e já quase a chegar ao centro histórico, reparámos que, no início, a ponte tem umas ameias. Antigamente, existiam em toda a sua extensão, como existia uma muralha à volta de Ponte de Lima. Podemos ver por onde passava no chão da Praça de Camões. Depois é olhar à volta para ver como a principal praça da terra – com o seu chafariz renascentista – é bonita. Atrás dela, fica a Rua Francisco Beato Pacheco, a primeira da localidade.

Seguindo pelo Passeio 25 de Abril, a avenida paralela ao rio, passámos por duas torres, as que restaram das nove que protegiam a vila. A primeira chama-se Torre de S. Paulo. Sabem por que é que há um painel de azulejos onde se lê “Cabras São, Senhor”? Porque, em 1140, andava D. Afonso Henriques a caçar, quando ouviu um ruído. Intrigado e temendo ser atacado, perguntou o que era, ao que lhe responderam que, afinal, eram cabras. A terra onde isso aconteceu chama-se Cabração (Cabras são). Na parede da torre, estão ainda as marcas das três maiores cheias de que há memória em Ponte de Lima.

Azulejo na Torre de S. Paulo

Na segunda torre, onde atualmente funciona a Loja de Turismo, ficava a Cadeia dos Homens, de onde se tem uma excelente vista sobre o centro histórico.

Por sua vez, a Cadeia das Mulheres situava-se um pouco antes, num edifício amarelo, transformado na Casa da Terra. Vale a pena entrar, não só para ver a criativa decoração do espaço, mas também para provar (e comprar) produtos exclusivos de Ponte de Lima, entre os quais artesanato, deliciosos enchidos tradicionais da marca Minho Fumeiro e vinho verde.

Interior da Casa da Terra
Petiscos na Casa da Terra
Tríptico com pormenores da Casa da Terra

Quem quiser saber mais sobre este vinho minhoto, poderá visitar o Centro de Interpretação e Promoção do Vinho Verde, sediado na casa-torre dos Barbosa Aranha, um edifício brasonado do séc. XVII, uma das muitas casas senhoriais que existem em Ponte de Lima e nas proximidades.

Calcorreámos as ruas empedradas da vila, reparando como as casas e os monumentos estão bem preservados. Ouvimos a pronúncia do Norte. Subimos as escadas que nos conduzem ao que restou da antiga muralha. Encontramos várias igrejas, entre as quais a Igreja Matriz, e diversas estátuas como as alusivas à Vaca das Cordas e às Feiras Novas, os dois principais eventos locais. E assim vamos criando memórias de momentos simples e felizes numa das vilas mais bonitas de Portugal.

Estátua alusiva à Vaca das Cordas
Prova de vinhos no Centro de Interpretação e Promoção do Vinho Verde
Data numa pipa no Centro de Interpretação e Promoção do Vinho Verde
Porta na Torre da Cadeia Velha em Ponte de Lima
Painel de Azulejos em Ponte de Lima
Tríptico com pormenores de Ponte de Lima
Cavaleiro em Ponte de Lima
Estátua Memórias do Campo em Ponte de Lima
Arco íris a cruzar a Torre da Cadeia Velha em Ponte de Lima

Guia prático para visitar Ponte de Lima

Onde comemos

  • Restaurante RiverView. Ponte de Lima é conhecida pelo seu arroz de sarrabulho, acompanhado por rojões de porco, farinhatos e tripas. Da última vez que o comemos foi neste restaurante ao lado do Hotel Império do Norte, na Avenida dos Plátanos.
  • Casa da Terra. É um excelente local para provar o que de melhor se faz em Ponte de Lima: petiscos, tapas, enchidos e vinhos.
  • Mercearia da Vila. Situada no centro histórico de Ponte de Lima, a antiga mercearia da vila foi transformada num café e a casa da família (nos andares superiores do edifício) em alojamento local. A decoração é muito original e cheia de pormenores encantadores, porque o filho dos proprietários manteve muitos dos bens da família e da mercearia centenária.

Onde dormir

Apesar de ser uma terra pequena, em Ponte de Lima há opções de alojamento para todos os gostos, como o Hotel Império do Norte, um renovado hotel de 3 estrelas situado na Avenida dos Plátanos, a Mercearia da Vila, que referimos anteriormente, além de vários solares nas redondezas.

Reservar alojamento em Ponte de Lima

Vista de Ponte de Lima ao anoitecer
Vista de Ponte de Lima a partir da Ponte Medieval
Ponte medieval de Ponte de Lima ao anoitecer

O que visitar nas proximidades

  • Percurso dos Açudes. Situado na margem esquerda do rio Lima, liga Ponte de Lima a Ponte da Barca e pode ser percorrido quer a pé quer de bicicleta;
  • Ponte da Barca;
  • Paisagem Protegida de Corno de Bico;
  • Lagoas de Bertiandos e S. Pedro d’Arcos.

Principais eventos

  • Vaca das Cordas (Junho)
  • Feira do Cavalo (Junho/Julho)
  • Feiras Novas (segundo fim-de-semana de Setembro)

Passeio realizado nos dias 10 e 11 de Março de 2018, a convite do Turismo do Porto e Norte de Portugal

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2 Comentários

  1. Adorei…e partilhei…bom trabalho

  2. Lendo sobre as antigas aldeias portuguesas que você e Sofia visitaram, vejo que há muito a aprender sobre essa terra, seu povo e sua cultura. Estive em Lisboa, Porto, Óbidos e outras cidades turísticas, mas lamento não ter conhecido essas aldeias, onde, certamente, mora a alma portuguesa. Obrigada por compartilhar tantas informações, por meio de uma linguagem tão afetiva.
    Sucesso para vocês!
    Abraços brasileiros,
    Regina

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