A Madeira é um excelente destino para quem gosta de natureza e “lifestyle”. De um lado, estão as levadas, a floresta laurissilva, as montanhas, as piscinas vulcânicas, as cascatas, os percursos pedestres. Do outro, o Funchal vibrante, hotéis requintados, cafés e bares modernos, excelente gastronomia bem como pequenas povoações com ruas estreitas para explorar, jardins cheios de flores, casas encavalitadas em encostas a olhar para o mar.

Eu gosto de conciliar os dois interesses. Ao Paulo interessa-lhe essencialmente a natureza. Por essa razão, nesta viagem à Madeira, não andámos sempre em sintonia. Juntando a isso a constipação e as alergias que o consumiram, nem tudo correu bem. Houve momentos de sofrimento, cansaço, desânimo e frustração como houve momentos de introspecção, auto-descoberta, superação e pura alegria.

Este é o relato da nossa viagem na Madeira durante nove dias, com alguns desabafos pessoais pelo caminho.

Diário da nossa viagem à Madeira

Dia 1

O voo entre Lisboa e o Funchal demora 1h 45 m. Como ficámos numa das últimas filas do avião, ainda estávamos a acabar de comer, já estavam as hospedeiras de bordo a recolher tudo, que estávamos quase a aterrar.

À semelhança de outras viagens, optámos por alugar um carro para conhecer a Madeira. No primeiro dia, quisemos explorar o lado este da ilha, onde também se situa o aeroporto. Por isso, e como chegámos à hora de almoço, a primeira coisa que fizemos foi ir comer. Não sei se atarantados com a rapidez do voo, se tontos de excitação, em vez de irmos almoçar ao restaurante que um amigo nos recomendou no Caniçal, errámos o alvo e entrámos num restaurante ao lado, chamado Cabrestante. Felizmente, a comida era boa – lapas, castanhetas (peixinhos fritos), dourada do mar grelhada e bolo do caco – tudo acompanhado por uma bela limonada natural, com vista para o mar.

Depois do almoço, demos um passeio pela marginal e pelo porto do Caniçal. Vimos grandes barcos de pesca, observámos alguns pescadores a jogar dominó e sentámo-nos a tirar fotos nuns bancos em forma de baleia, pintados à mão.

A seguir, fomos fazer check-in na Quinta do Lorde, nas proximidades daquela pequena povoação. A nossa intenção era não nos demorarmos, mas o resort seduziu-nos tanto que ficámos a saborear a boa vida, sobretudo na inesquecível piscina de maré.

Consequentemente, tivemos de acelerar até à Ponta de São Lourenço para chegarmos a tempo de ver o pôr-do-sol nesta longa península, que constitui o extremo oriental da ilha da Madeira.

Ponta de São Lourenço
Ponta de S. Lourenço ao final do dia

Enquanto o Paulo fotografava, sentei-me a ouvir o mar e ouvi-me a mim própria a pensar. Senti o vento nos cabelos. Vi as nuvens a passar rapidamente. Inspirei conscientemente o cheiro a maresia. Ouvi as ondas agitadas contra as rochas, em contraste com a serenidade que sentia. Para mim, viajar não são (tanto) as pessoas. Pessoas existem em todo o lado, mesmo ao nosso lado, e ignoramos tantas, todos os dias. Porque é que, só por si, as que estão longe hão-de ser mais importantes do que as que estão próximas? Viajar para mim é reencontrar-me comigo própria e com o que me transcende. Normalmente não são coisas grandiosas. São pequenos momentos em que tudo faz sentido.

Dia 2

A Ponta de São Lourenço é ainda mais fotogénica ao nascer do sol. Por essa razão, no segundo dia na Madeira, resolvemos madrugar. De lanterna em punho, caminhámos, não até ao fim da península, mas até ao seu ponto mais alto, onde existe um marco geodésico. Não há um trilho marcado para lá chegar mas, ziguezagueando, conseguimos alcançá-lo. Depois foi esperar na escuridão pelo nascer do sol, enquanto experimentávamos sensações mistas de cansaço, superação e acalmia.

Infelizmente, o dia nasceu muito nublado e o Paulo não conseguiu as fotos que pretendia. Regressámos à Quinta do Lorde para tomar o pequeno-almoço e, a seguir, fomos à procura de uma cascata, na zona de Santana.

Fácil de encontrar, a queda de água da Aguage é desconhecida da maior parte das pessoas. Apesar de se poder estacionar o carro mesmo ao lado, descendo por um íngreme caminho rural, nós decidimos fazer essa última parte a pé. A cascata é muito bonita. Só é pena o lixo. Como é que alguém pode ir a um lugar assim e sujá-lo? Fiquei a observar, ao longe, o entusiasmo do Paulo a fotografar e, de perto, os fetos, as folhas, as flores como se não as visse com atenção há já muito tempo. No final, começou a chover: primeiro devagarinho e depois torrencialmente. O que é que nós fizemos? Abrigámo-nos debaixo de uma árvore, trocámos sorrisos e dançámos num abraço.

Cascata da Aguage
Cascata da Aguage, concelho de Santana

Chegámos já tarde ao restaurante Casa de Palha, em S. Jorge. Foi aí que nos secámos, envolvidos por um ambiente acolhedor. Paredes de madeira, luz ambiente, cortinas artesanais, comida regional reconfortante, simpatia, um cão enorme em cima do telhado. Sentimo-nos como se estivéssemos na casa de pessoas amigas.

À tarde, a caminho da Quintinha de S. João, onde passaríamos as próximas duas noites, parámos no Miradouro do Cabo Girão. É o cabo mais alto da Europa, famoso pela sua plataforma suspensa em vidro, que oferece vistas vertiginosas sobre pequenos campos cultivados no sopé da encosta (fajãs), o oceano e os municípios de Câmara de Lobos e do Funchal.

O resto da tarde foi passado na maravilhosa Quintinha de S. João, no Funchal, a passear e a descansar no jardim-retiro, bem como a aproveitar a piscina interior aquecida. Só voltámos a sair para ir jantar. Até ao centro histórico, foram 15 minutos a pé e foi, então, que me apaixonei pelo Funchal à noite.

Dia 3

Ao terceiro dia, começaram as nossas caminhadas pelas levadas da Madeira. As levadas são canais de irrigação, ladeados por um caminho, específicas da ilha da Madeira. Começaram a ser construídas à mão, no séc. XVI, para levar água do chuvoso norte para o sul da ilha, onde cresciam plantações de açúcar, bananas e vinhas.

A rede de levadas da Madeira tem cerca de 1400 km de extensão. Para aquecer, nós começámos por uma das mais fáceis e bonitas, a que deram o nome “Um Caminho para Todos” por se tratar de um passeio acessível a qualquer um, incluindo pessoas com incapacidade visual e motora. Fica no concelho de Santana e liga o Pico das Pedras ao Parque das Queimadas. Quando chegámos, estava a chover e a floresta laurissilva coberta por um fantasmagórico nevoeiro. Curiosamente, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, a máquina fotográfica gosta tanto dele como nós.

Caminhando no trilho chamado Um Caminho para Todos
No trilho “Um Caminho para Todos”, concelho de Santana

Almoçámos no restaurante Ribeiro Frio na localidade com o mesmo nome e depois fizemos a Levada dos Balcões, outra levada muito bonita, fácil e curta. O trilho termina no Miradouro dos Balcões mas, em vez das montanhas cobertas por uma densa floresta laurissilva, só vimos um nevoeiro-branco-total.

Para contrariar a frustação, e porque nos apetecia continuar a andar pelas levadas, metemos pela do Furado, também com partida do Ribeiro Frio. Combinámos que andaríamos apenas uma hora e depois voltaríamos para trás, mas acabámos por andar cerca de duas e apetecía-nos mais e mais.

No regresso ao Funchal, o nevoeiro e os raios de sol andavam a brincar com as árvores na floresta – para alegria do Paulo que tentava captar tudo com a máquina fotográfica. Às tantas, passámos por um sinal na estrada a dizer “Pico do Areeiro” e por que não subir até lá cima, para ver a segunda montanha mais alta da Madeira ao pôr-do-sol? À chegada, foi o deslumbramento. Estávamos acima das nuvens, douradas, que corriam aceleradas pelos picos afiados das montanhas. Foi tão bom que rapidamente esqueci a aflição de não ter onde fazer chichi, do tombo que dei entretanto no piso arenoso e escorregadio, e dos nervos que me levaram às lágrimas.

Dia 4

Neste dia, fizemos uma pausa nas caminhadas e andámos a explorar o interior da ilha de carro. Primeiro, fomos ao Miradouro da Eira do Serrado, de onde se tem a melhor vista panorâmica sobre o Curral das Freiras, uma pequena localidade situada nas profundezas de um vale, rodeada de altas montanhas, onde as religiosas do convento de Santa Clara se terão refugiado dos piratas.

A meio da manhã, parámos na Taberna da Poncha da Serra d’Água, para provar a que muitos consideram a melhor poncha da Madeira, uma bebida tradicionalmente feita com aguardente de cana-de-açúcar, sumo de limão e açúcar ou mel.

Depois subimos, subimos, até à estrada do Paul da Serra (ER110), o maior e mais extenso planalto da Madeira com cerca de 24 km2 e uma altitude de aproximadamente 1500 metros. Quase todo o planalto está coberto por vegetação rasteira, remanescente da sua anterior utilização como local de pastoreio, e na minha opinião não é muito interessante. Nas proximidades, porém, existe um local especial chamado Fanal, que queríamos muito visitar.

Sofia debaixo de um Til no Fanal
Sofia debaixo de um Til, no Fanal

Trata-se de uma pequena floresta de árvores chamadas “tis”, algumas das quais com centenas de anos. O local é especialmente bonito e surreal quando há nevoeiro. Há quase sempre, mas nós tivemos de andar literalmente a correr atrás dele nessa tarde, já que vinha soprado a vento e desaparecia logo a seguir. Nos dias seguintes, haveríamos de voltar mais duas vezes ao mágico Fanal e, raridade das raridades, tristeza, das tristezas, o céu estava limpo.

O resto do dia foi passado na Casa Velha do Palheiro, uma célebre quinta no Funchal, onde comemorámos três anos de casados e o meu aniversário.

Dia 5

A Casa Velha do Palheiro tem um dos mais belos jardins madeirenses, por onde passeámos depois do pequeno-almoço. Seria uma manhã dedicada aos jardins, porque era nossa intenção visitar ou o Jardim Botânico ou o Jardim Tropical Monte Palace (propriedade da Fundação Berardo), ambos localizados na freguesia do Monte, no Funchal. À chegada, porém, achámos os preços demasiado caros e, como já tínhamos visto um jardim nessa manhã, mudámos de planos. Demos um curto passeio pelo Largo do Monte, subimos à Igreja de N. S. do Monte, assistimos à descida dos carros de cestos e rumámos à costa norte da ilha.

Pelo caminho, almoçámos no restaurante Abrigo do Pastor, cuja especialidade é comida serrana madeirense.

Nas piscinas de Porto Moniz
Nas piscinas de Porto Moniz

Fizemos check-in no hotel Solar da Bica, em São Vicente, e percorremos parte da costa norte de carro, com duas paragens pelo caminho. A primeira foi na povoação do Seixal, onde existem umas piscinas naturais e uma serena praia de areia preta. A segunda foi nas piscinas naturais de Porto Moniz, onde me deliciei a nadar ao pôr-do-sol.

Por fim, jantámos uns deliciosos filetes de peixe-espada com arroz de lapas no restaurante Solmar, no Seixal, e voltámos ao Solar da Bica, com desejos de que o Paulo melhorasse da constipação. À chegada ao quarto, tínhamos um cestinho de doces regionais e compota caseira de ameixa à nossa espera, uma surpresa preparada pela Liliana, a simpática e sorridente funcionária do hotel.

Dia 6

Eis o dia da grande caminhada! Mesmo com o Paulo constipado, fizemos o trilho entre os dois picos mais altos da Madeira, nomeadamente o Pico do Areeiro e o Pico Ruivo e depois mais 2.2 km até à Achada do Teixeira. Sobrevivemos aos degraus que pareciam infinitos e adorámos.

É engraçado o que guardamos na nossa memória. No momento em que senti maior dificuldade e cansaço, quando subia o lanço de escadas mais íngreme do percurso, olhei para umas ervas compridas e acastanhadas. Estavam presas a uma rocha vertical e eram fustigadas pelo vento. Foi isso que me deu forças para continuar e ainda hoje as consigo visualizar dentro de mim.

Nessa noite, fomos dormir ao Funchal, num dos Apartamentos da Praça Amarela, e que bom que foi chegar a um estúdio tão bonito, mesmo no centro da cidade, com próteas numa jarra à nossa espera.

Caminhando pelo PR1 – Vereda do Areeiro
No PR1 – Vereda do Areeiro

Dia 7

Passámos a manhã a passear de carro pela costa sul da Madeira, desde o Funchal até ao farol da Ponta do Pargo, o ponto mais ocidental da ilha. As expectativas que tinha estragaram-me quase por completo o prazer desta viagem. Imaginara que iríamos por uma estrada panorâmica, parando de terra em terra, sempre junto ao mar. Em vez disso, andámos quase sempre dentro de túneis compridos e poluídos. Para piorar, o Paulo andava com pouca vontade de calcorrear as várias terras por onde passávamos enquanto eu desejava demorar-me em cada uma delas: na Calheta, na Ponta do Sol, no Jardim do Mar, no Paul do Mar… Releiam essas palavras. Até os seus nomes são bonitos.

Achavam que gostávamos de tudo em viagem? Que os nossos interesses eram coincidentes a todo o momento e que andávamos constantemente em sintonia? Nem sempre é assim, mas passa. E passou, quando da parte da tarde voltámos à natureza apaziguadora, desta vez às levadas na zona montanhosa do Rabaçal.

Queríamos fazer um percurso pedestre curto e plano para não abusar das pernas ainda doridas do dia anterior, mas acabámos por fazer dois: a Levada do Alecrim e o trilho até à Lagoa do Vento. No final, esperáva-nos um dos cenários mais espetaculares que vimos na ilha, nomeadamente um arco-íris a colorir uma cascata.

Cascata e lagoa da Dona Beja
Cascata no final da Levada do Alecrim

Dia 8

Começámos o dia bem cedo visitando o Mercado dos Lavradores, no Funchal. Que impressionante quantidade e variedade de fruta: maracujás de várias cores e formatos; bananas de espécies que não chegam ao continente nem nunca tínhamos visto, além de malaguetas com pinta de fazerem arder a boca mais resistente.

Numa banquinha, um senhor simpático insistiu para que provássemos um tal de “fruto delicioso” (confirmámos que era mesmo uma delícia) e vários tipos de maracujá. Estes últimos já estavam abertos e, com a colher que usou para os mexer, deitou-nos um pouco nas costas das mãos para que os saboreássemos. Eram todos docinhos. Qual é que preferem? Conversa puxa conversa, decidimos comprar dois maracujás-limão, duas bananas-maçã e um fruto delicioso. Nem vos digo o preço, porque tenho vergonha. Pior: quando mais tarde provámos os maracujás-limão, eram tão ácidos que não os conseguimos acabar. Será que adicionaram açúcar aos do mercado? O meu conselho é, pois: tenham cuidado no Mercado dos Lavradores, para não terminarem a visita tristes como eu.

Fruta no Mercado dos Lavradores
Momento em que a Sofia foi aldrabada no Mercado dos Lavradores

À tarde, voltámos ao Rabaçal. Ficámos viciados nas caminhadas madeirenses. Desta vez, fizemos a Levada do Risco e a Levada das 25 Fontes. Foi cansativo, quer pela distância quer pelo acumular de cansaço no corpo, mas valeu a pena.

Terminámos o dia a jantar no maravilhoso restaurante do Hotel da Vila, na Ponta do Sol, uma pequena povoação à beira-mar pela qual me apaixonei. A dormida foi na Quinta das Vinhas, uma propriedade onde – como o nome indica – se produz vinho da Madeira.

Dia 9

Lembram-se do restaurante que falhámos no primeiro dia da viagem? Pois bem, chama-se Bar Amarelo e regressámos ao Caniçal no último dia para almoçar lá, antes de voltarmos para Lisboa. As lapas eram boas, mas o gaiado (peixe seco) custou-nos a engolir.

Prato de lapas
Lapas, uma especialidade da ilha da Madeira

Depois foi a parte chata: aeroportos, avião, esperas e retomar o trabalho no dia seguinte.

Em suma, como a vida, a nossa viagem à Madeira não foi perfeita, mas foi muito boa. Pensando bem, do que não gostei foi do que queria, mas não tive tempo de fazer.

Mochila amarela da Sofia: Kraxe Wien (mochilas sustentáveis produzidas em Portugal)

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4 Comentários

  1. Muito útil este roteiro. Nunca fui à Madeira (sem ser ao Funchal), mas quando for vou seguir muitas das vossas dicas. Fotografias lindas (para variar). Obrigado.

    PS: Paulo, que tripézinho é aquele que vejo numa fotografia? Queria um assim maneirinho também 🙂
    Abraço e beijinhos

    • Olá Gabriel, obrigado pelo teu comentário.
      O Tripé não é assim tão pequeno, está é recolhido. Na altura escolhi-o por ser de carbono e super transportável (tamanho e peso) mas estende para um tamanho “normal” – todo estendido tenho dificuldade em olhar pelo viewfinder.
      Se continuares interessado posso averiguar a marca e modelo.

  2. Olá. Em que época do ano fizeram essa viagem à Madeira? Obrigada.

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