Dois dias antes do Natal, numa manhã fria de inverno, acordámos cedo para fazer uma caminhada na Ecovia do Vez, no norte de Portugal. Os dias anteriores, em Lisboa, tinham sido de correria: correria atrás de prendas, lojas cheias, atropelos, esperas, irritação. Ansiávamos por paz, simplicidade e algum sentido.

Caracterização da Ecovia do Vez

  • Tipo de percurso | Longa Rota (linear)
  • Localização | Concelho de Arcos de Valdevez
  • Início/Fim | Jolda de S. Paio/Sistelo
  • Distância total | 32 km
  • Duração | 6h30
  • Dificuldade | Médio
  • Brochura oficial

Uma vez que a distância total da Ecovia do Vez é bastante longa (32 km), planeámos fazer apenas um terço do percurso (10 km, 2 horas) desde a Ponte Medieval de Vilela até Sistelo, uma aldeia minhota conhecida como o “pequeno Tibete português”. Em Sistelo, regressaríamos ao ponto inicial de táxi.

ecovia do vez
caminhando pela ecovia do vez
rio vez e vaca cachena na ecovia do vez
árvores na ecovia do vez
passadiço de madeira na ecovia do vez

Partimos de Braga, a minha cidade-natal, às 8h30 da manhã e chegámos à Ponte Medieval de Vilela, no concelho de Arcos de Valdevez, uma hora depois.

Geralmente, as pessoas não têm consciência da beleza do que as rodeia, focando-se no que é negativo. Vi as árvores despidas. O céu cinzento. Uma paisagem escura. Senti frio e não me apetecia sair do carro. Já o Paulo não se queixou de nada e saiu entusiasmado para o mundo.

rio vez
árvore na ecovia do vez

Primeiro foi a neblina matinal. Depois o verde esmeralda-intenso do rio Vez que me foram conquistando.

Enquanto caminhava, os meus pensamentos oscilavam entre lembranças do passado e ideias sobre o futuro. Para nos sentirmos felizes, temos de nos agarrar ao presente, ao que estamos a viver no momento. As caminhadas ajudam-nos nesse sentido. Ficamos mais silenciosos, mais relaxados, mais calmos e é então que nos começamos a aperceber da beleza do que nos rodeia: da beleza das árvores, da beleza da água, da beleza das pessoas, da beleza da vida.

caminhado pela ecovia do vez
caminhando pela ecovia do vez
detalhe do trilho na ecovia do vez
detalhe de ramos de ávores na ecovia do vez
cascata e ecovia do vez
passadiço na ecovia do vez

A neblina numa manhã fria de inverno a levantar-se lentamente da terra.

As gotículas de orvalho.

As teias de aranha a brilhar como se tivessem sido tecidas com pequenos diamantes.

O caminho de terra coberto por um tapete de folhas.

Uma vaca cachena, pachorrenta apesar dos seus ameaçadores cornos, inesperadamente à nossa frente.

O trilho a acompanhar o rio Vez.

Alguns passadiços de madeira para facilitar a nossa passagem.

A água cristalina e o ruído do rio a correr, ora serena ora tumultuosamente.

Algumas cascatas e praias fluviais.

detalhe de uma árvore na ecovia do vez
detalhe de uma teia de aranha com orvalho na ecovia do vez
cascata na ecovia do vez

A alegria do Paulo por estar no meio da natureza.

O seu entusiasmo a fotografar.

Os nossos risos e sorrisos.

As suas palavras.

O silêncio confortável.

O podermos ser totalmente nós um com o outro.

O amor que sentimos.

São momentos a que me agarro no presente, afugentando os pensamentos sobre o passado e sobre o futuro. São momentos simples, que dão sentido à minha vida.

vaca cachena na ecovia do vez
caminhando pela ecovia do vez
trilho coberto por folhas na ecovia do vez
passadiço junto ao rio vez
rio vez
água cristalina do rio vez

O presente, todavia, nem sempre é agradável como quando, quase a chegar ao final do percurso, depois de termos andado cerca de 10 km, cansados e a precisar de almoçar, encontrámos o caminho cortado devido a uma derrocada que partira o passadiço de madeira, impedindo-nos de continuar.

Lá vieram os meus pensamentos pessimistas sobre o futuro a correr velozmente, invandindo-me a mente, sobrepondo-se ao presente e deixando-me com um desalento e um estado de ânimo difíceis de aturar, até por mim própria.

O que é que faço nessas alturas? Queixo-me e queixo-me sem parar: tenho fome; estou cansada; só faltava 1,5 km para chegarmos a Sistelo e agora vamos ter de andar tudo para trás; como é que a Câmara Municipal não avisa as pessoas, ao longo do trajeto, que o caminho está cortado? Queixar-me é a minha forma de aliviar a tensão que sinto. Já o Paulo tenta pensar logo numa solução. Neste caso, foi voltarmos para trás para tentarmos encontrar um atalho na Ecovia que nos conduzisse a uma estrada, de onde poderíamos pedir boleia ou chamar um táxi.

rio vez

Ainda andámos bastante até chegarmos a uma estrada. Era uma via secundária nas montanhas, por onde não passou um único carro. Tivémos de continuar a andar até chegarmos ao lugar de São Sebastião, uma aldeia onde não encontrámos ninguém. Daí – e já com rede – telefonámos para um táxi, cujo número havíamos fotografado no início da caminhada, junto à Ponte Medieval de Vilela. Atendeu-nos uma taxista, mas tinha um serviço e só nos poderia ir buscar passado, pelo menos, uma hora. Continuámos a andar, mais e mais, até que ouvimos um carro. Virámo-nos imediatamente e pedimos boleia. Vimo-lo a abrandar devagarinho. “Pára… Pára…” – disse dentro de mim. Até que parou.

Dentro do carro seguia um típico casal minhoto muito simpático e uma criança tímida. Apercebi-me do quanto ainda teríamos de andar se não fossem eles e senti-me extremamente grata por nos terem ajudado e por haver pessoas boas. Levaram-nos mesmo até ao pé da Ponte de Vilela, onde tínhamos deixado o carro, despedindo-se de nós com um repetido e sincero: “Vão com Deus”.

Apesar daquele contratempo no caminho, que nos obrigou a voltar para trás e a andar bastante mais do que o previsto, gostámos muito da Ecovia do Vez e, no final, reencontrámos o amor: o amor um do outro e o amor de quem nos ajudou desinteressadamente.

saltando no passadiço, ecovia do vez

Guia prático

A importância do rio Vez e de Sistelo

O rio Vez integra a lista de Sítios de Importância Comunitária da Rede Natura 2000 (Rede Ecológica da União Europeia) e está classificado como área protegida, devido à relevância da sua fauna e flora.

Por sua vez, Sistelo foi eleita, num concurso televisivo, uma das “7 Maravilhas de Portugal”, depois de ter vencido na categoria Aldeia Rural e, no final de 2017, foi classificada como monumento nacional, enquanto paisagem cultural, essencialmente devido aos seus socalcos.

atravessando poldras sobre o rio vez

Dicas sobre o percurso pedestre

  • Apesar da derrocada que acidentalmente partiu o passadiço em Dezembro de 2018, o trilho está muito bem mantido e limpo. Segundo informação recolhida no dia 2 de Janeiro de 2019 junto à Câmara Municipal de Arcos de Valdevez , o passadiço já está transitável e será, em breve, restaurado;
  • Poderá começar a Ecovia do Vez quer em Jolda de S. Paio quer em Arcos de Valdevez quer em Vilela ou, então, fazer o percurso na direção contrária a partir de Sistelo;
  • Se, como nós, resolver começar a Ecovia em Vilela, deverá seguir a indicação “Ponte Medieval”. Junto à ponte, há estacionamento para 2 ou 3 carros. O ponto de partida da ecovia é aí e está bem assinalado;
  • O trilho segue sempre ao longo da margem do rio Vez, com exceção de um troço de 2 km por estrada, a seguir à Praia Fluvial Poço das Caldeiras;
  • Não se esqueça de levar água e alguma comida (como, por exemplo, barritas de cereais, bananas, etc);
  • Com a humidade, os passadiços de madeira ficam muito escorregadios. Por isso, tenha cuidado para não cair;
  • No inverno, também é frequente haver poças de água no caminho. Convém, pois, levar calçado impermeável;
  • Se for no verão, não se esqueça do fato de banho, porque há várias praias fluviais pelo caminho;
  • Por fim, nunca é demais repetir: não danifique a flora nem deixe lixo ou outros vestígios da sua passagem.
ponte medieval de vilela
sinal de piso escorregadio num passadiço da ecovia do vez
rio vez
saltando uma poça de água na ecovia do vez
mó de um antigo moínho

Os Passadiços de Sistelo

Como não somos pessoas de desistir, depois do almoço nos Arços de Valdevez, fomos a Sistelo para fazer o quilómetro e meio da Ecovia do Vez que nos faltava. Na aldeia, há indicação de dois percursos pedestres: um chamado “Passadiços de Sistelo” e o outro, “Ecovia do Vez”.

O trilho “Passadiços de Sistelo” ou PR 25 – Trilho dos Passadiços é uma rota circular (2 km, 1 hora, fácil) que desce da aldeia às margens do rio Vez, atravessa o rio, passa por uns passadiços integrados na Ecovia do Vez e, por fim, sobe de volta a Sistelo. No inverno, porém, como o rio vai cheio, é impossível atravessá-lo a pé. Por isso, se quiser ver os passadiços, em vez de seguir a placa “Passadiços de Sistelo”, deve seguir a placa “Ecovia” porque essa, sim, conduz aos passadiços que são a parte mais bonita do trilho que lhes inspirou o nome.

caminho antigo de pedra até aos passadiços de sistelo
passagem pelo rio, passadiços de sistelo
detalhes do trilho dos passadiços de sistelo
passadiços de sistelo
caminhando entre os campos, passadiços de sistelo
mosaico de campos em sistelo

Onde comer

Há um restaurante em Sistelo, o Cantinho do Abade, que não experimentámos. Outra alternativa, é ir comer aos Arcos de Valdevez.

Em Sistelo, também há um café onde achámos graça às moedas em equilíbrio nas pedras das paredes.

Onde dormir

Caminhada realizada no dia 23 de Dezembro de 2018

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Boas viagens à solta!

20 Comentários

  1. Solicito e agradeço o envio regular dos Vossos programas, datas e preços para seleccionar os que mais me interessam efectuar. Cumprimentos. Francisco Rodrigues

    • Caro Francisco, obrigado pelo seu interesse. Porém, nós não organizamos passeios em grupo. O nosso site serve para dar a conhecer lugares e experiências que nós gostamos e motivar os nossos leitores a viajar e conhecer mais.

  2. So uma pequena correção a vaca é de raça cachena típica do alto Minho e não de raça arouquesa de Arouca onde se situam os passadiços do Paiva

  3. Obrigada pelo vosso comentário,
    Muito interessante o vosso testemunho sobre as nossas terras.

  4. Adoro a forma como descrevem as vossas viagens ou passeios, não só apenas com as partes boas, mas também com as menos boas, que na verdade acontecem a todos, mas das quais na maior parte das vezes, ninguém fala .. muitos parabéns!!

    • Obrigado pelas suas palavras Idalina. As viagens, como a própria vida, são feitas de momentos bons e momentos menos bons. Temos de tentar que os momentos bons sejam a maioria 🙂

  5. Obrigado pela partilha destes momentos, adorei a vossa cronica, bem como as magnificas fotos! Conseguiram despertar-me o interesse em conhecer ao vivo, espero que em breve.

  6. Gostei imenso do texto e das fotos. Simples, honesto e despretensioso. Que mais posso dizer, fizeram-me gostar desse local sem nunca ter lá estado…

  7. Achei excelente a descrição do local e adorei as fotos. Este tipo de artigo é uma óptima ideia para dar a conhecer ao Mundo as belas paisagens do nosso país e também para termos a ideia do que vamos encontrar pelo caminho, nem sempre vamos bem preparados e equipados para este tipo de percurso.
    Parabéns gostei muito do vosso artigo.

  8. Obrigado pela magnifica descrição dos passeios. Vai ser agora que irei conhecer os passadiços do rio Vez e a aldeia de Sistelo.

  9. Obrigada pelo vosso artigo com boas descrições e lindissímas fotografias. Deu-me muita vontade de fazer o percurso. Se tiverem tempo para responder queria vos perguntar se será fácil fazê-lo de bicicleta? Pelas vossas fotos fiquei com dúvidas, e se não é mais fácil ir do Sistelo para Vilela? Obrigada e parabéns1 Vou continuar a espreitar o vosso blog

    • Olá Sofia, gostaria de ajudar, mas não sei se é possível fazer o percurso de bicicleta. Não me parece, porém, recomendável porque os passadiços são para se andar a pé. Quanto à segunda pergunta, penso que é indiferente fazer o percurso numa ou noutra direção. Beijinhos e vamo-nos “encontrando” por aqui 🙂

      • Obrigada Sofia pela rápida resposta, e ajudou muito. Já fui ver outros artigos vossos, tenho estado a gostar muito, dso textos, das indicações, e das fantásticas fotos! Boa continuação!

  10. Parabéns Paulo e Sofia ! O vosso artigo com fantásticas fotos, transmite uma simplicidade e sentido para a importância da natureza a todos os que gostam de caminhar por trilhos de grande interesse paisagístico e ambiental.
    Não importa se a distância é longa ou curta – significa viajar na nossa consciência, procurar equilíbrio entre o corpo e o espírito.
    Obrigado pelas vossas dicas.

    • Caro Abel, muito obrigada pelo seu comentário. Era mesmo essa a mensagem que queríamos transmitir. Ainda bem que o conseguimos e oxalá mais pessoas se revejam nas suas palavras e façam este trilho não porque está na moda, mas pelo prazer de sentir a natureza.

  11. Boa tarde. Excelentes fotografias, de um realismo fenomenal. Até dá vontade de entrar nas fotos visto que parece que estamos na realidade nos próprios locais. Estão de parabéns. Os locais eleitos são de bastante interesse e de grande contacto com a natureza. Obrigada por partilharem com uma parte escrita mais poética e abaixo com a ficha técnica sucinta e prática dos trilhos visitados. Para mim a vossa informação está a ser útil no momento como dados para organizar uma viagem que queria fazer. Muito obrigada e boas viagens à solta.

  12. Obrigada pela excelente partilha. Queria apenas referir que na aldeia de São Sebastião existe serviço de táxi. E uma vez que a ecovia é longa deixo aqui o contacto do Sr. Abel que se trata de um simpático taxista que pode auxiliar quem procura transporte para voltar ao ponto de partida onde por vezes são deixados os carros. Taxi Abel Gonçalves – 966924137.

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