Sabíamos que as serranias do norte de Portugal ficavam muito bonitas na primavera, pintadas de amarelos, brancos e lilazes. Abaixo do Douro, há mais serras e, da última vez que lá estivemos, disseram-nos que essas montanhas – a que chamam Mágicas – também ficavam floridas em Maio. Dissemos, então, que voltaríamos e voltámos: para caminhar, que é assim que nos sentimos mais próximos da natureza.

Chegámos à aldeia de Regoufe às oito horas da manhã. É aí que começa o percurso pedestre que conduz a Drave, uma terra desabitada, só acessível a pé.

Em Regoufe, com a ajuda da dona de um café, encontrámos a pequena capela junto à qual tem início o trilho (a partir daí muito bem sinalizado). Atravessámos a aldeia, onde ainda se diz “bom dia” a quem quer que se encontre pelo caminho.

“Hoje não está bom para andar a pé” – disse-nos um senhor – mas nós sabíamos que eram apenas uns aguaceiros. Por isso, sorrimos e continuámos a caminhar, cruzando-nos com cães, gatos, galinhas e perus à solta, prestando atenção para não pisarmos os vestígios da passagem de vacas nas pedras dos caminhos.

A parte mais difícil do trilho é logo ao início quando, depois de atravessar a aldeia, se tem de subir por um caminho em mau estado e cheio de pedras tortas, até ao cimo de uma montanha.

Se não houvesse experiências negativas, não apreciaríamos as positivas – foi um pensamento que trouxemos do Japão – e a prová-lo, quando chegámos ao topo, ficámos completamente deslumbrados com a vista sobre os montes ondulados, cobertos por um manto de matos coloridos.

A partir daí o trilho continua através de pedras irregulares, mas sem grandes desníveis, até à aldeia de Drave. Se era essa a nossa meta, foi no caminho que ganhámos o que não temos todos os dias. Ouvimos o vento e os nossos passos. Vimos os montes floridos e encontrámos umas flores pequeninas muito azuis. Vimos as sombras das nuvens a deslizar pelas montanhas e o rio Paivô no fundo dos vales. Andámos à chuva, abrimos a boca e rimo-nos à gargalhada. Apanhámos granizo. Deixamos que o sol nos secasse a roupa no corpo. Sentimo-nos, no fundo, felizes e é essa a magia.

Chamada de “aldeia mágica”, não é Drave que é mágica ou será apenas para quem a visita, que a vida de quem aí morou não terá sido fácil. Por isso, apesar da sua bela localização num vale rodeado por altas montanhas arredondadas, a aldeia está abandonada e só os escuteiros aí param de vez em quando.

Guia prático para visitar Drave

O nosso programa

  • 06:00 – Acordámos na Casa dos Moinhos, em S. Pedro do Sul
  • 07:00 – Partida de S. Pedro do Sul, com o pequeno-almoço já tomado
  • 08:00 – Chegada a Regoufe e início da caminhada até Drave
  • 12:00 – Fim do percurso em Regoufe
  • 13:00 – Almoço no restaurante “São José” em S. Pedro do Sul (recomendamos os medalhões de vitela)
  • 15:00 – Passeio a pé pela cidade
  • 16:00 – Massagens nas Termas de S. Pedro do Sul
  • 19:00 – Jantar no Inatel Palace
  • Dormida na Casa dos Moinhos

Caracterização do trilho “PR 14 – A Aldeia Mágica”

  • Trilho linear (bem sinalizado)
  • Ponto de partida: Capela de Regoufe
  • Ponto de chegada: Drave
  • Distância: 4,5 km
  • Duração média: 2 horas (andando nas calmas e parando de vez em quando para tirar fotografias e absorver a paisagem)
  • Dificuldade: fácil (com exceção da subida inicial)

O que levar na caminhada até Drave

  • Calçado de caminhada;
  • Água e alguns snacks, como fruta e barras energéticas (não há cafés/restaurantes nem ao longo do percurso nem em Drave);
  • Chapéu e protetor solar (não há sombras pelo caminho);
  • Casaco corta-vento impermeável, mesmo no verão, dado que vai atravessar montanhas e o tempo pode mudar subitamente.

As nossas recomendações para visitar Drave

  • Começar o trilho de manhã cedo: assim evitará as horas de maior calor e terá as montanhas praticamente só para si. Além disso, acabará o trilho convenientemente à hora de almoço;
  • Caso prefira, leve farnel e poderá fazer um agradável piquenique em Drave, onde existem boas sombras – não se esqueça de não deixar ficar qualquer lixo;
  • Saiba ao que vai: a subida inicial do percurso custa um pouco e, no total, terá de andar 9 km (ida e volta). Não faça como uma senhora com quem nos cruzámos – nós a acabar o trilho e ela praticamente a começar – que, afogueada, nos perguntou se ainda faltava muito para chegar a Drave;
  • A primavera é, na nossa opinião, a melhor altura para fazer o trilho, não só porque as temperaturas são mais amenas, mas também porque as montanhas ficam floridas;
  • No verão, poderá tomar banho na ribeira de Palhais que atravessa a aldeia de Drave, aí formando algumas piscinas naturais.

Onde dormimos para visitar Drave

Casa dos Moinhos do Chão do Mosteiro em S. Pedro do Sul

A casa – confortável, relaxante e romântica – resulta da recuperação da antiga casa de moinhos que fornecia a vila e as aldeias vizinhas. Situada numa das margens do rio Vouga, proporcionou-nos bons pequenos-almoços e o descanso ideal no final de dias de caminhadas, além da possibilidade de adormecermos embalados pelo som do rio. Infelizmente, não tivemos tempo para desfrutar da piscina nem para fazer as atividades disponíveis (passeios de barco, bicicleta, moto-quatro e pesca) nem para percorrer a ecopista que, aproveitando o antigo traçado da Linha do Vouga, conduz às Termas de S. Pedro do Sul – experiências que farão, certamente, as delícias de quem aí ficar alojado.

Caminhada realizada no dia 12 de Maio de 2018

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6 Comentários

  1. Olá, bom dia.
    Gostaria de fazer esta caminhada na Primavera, sem dormida incluinda pois tenho onde ficar, é possivel?
    Poderiam enviar-me os valores com o almoço?
    Obrigada
    Sandra

  2. Bom dia, adorava fazer este trilho. Acha seguro com uma criança de 5 anos de idade, que está habituada a andar :). Obrigada!

  3. Olá Sofia,
    Gostei muito do seu texto sobre a Drave…
    É de facto um lugar mágico…
    “Venho do alto dos montes, onde correm os rios, que te enchem o olhar. Trago na mão dois destinos, uma cruz e um amigo, um pedaço de luar. E estes dias serão mil anos nas contas da tua vida. E esta noite será eterna, uma chama que liberta o dia. Partilhar o sol de todos os dias. Descobrir um sentido pr’aqui estar. E ao olhar o vale profundo. O mundo gira invertido. A vida toda num segundo. E o céu agora é lá no fundo.” Hino da Drave

    • Olá João, muito obrigada por partilhar o hino connosco. Gostei muito. Para mim, também são experiências assim que dão sentido à vida. Beijinhos!

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