Chama-se Saddam e é por causa dele que nunca esqueceremos Amieira do Tejo nem o Trilho das Jans, um percurso circular de 11 km de extensão e cerca de 4 horas de duração.

Chegámos a Amieira do Tejo de manhã cedo, ainda a localidade e o seu castelo do séc. XIV dormiam no nevoeiro. Não se via ninguém no largo da Junta de Freguesia onde estacionámos o carro. Depois, vindo não se sabe de onde, aproximou-se de nós um senhor que nos ficou a observar do outro lado da rua, fingindo que não nos estava a ver. Mais à frente, cruzámo-nos com uma senhora de bengala na mão a falar com um cão:

– Pois, já não queres as minhas bolachas. Parece que arranjaste companhia…

E depois, já virada para nós:

– Viram? Só lhe falta falar (enquanto o cão rodopiava à nossa volta e largava em corridas como um ió-ió). Chama-se Saddam – continuou a senhora – e é famoso na Internet. A dona dele foi viver para Lisboa e deixou-o ficar aqui na terra. Todos lhe dão de comer. Agora ia a minha casa para eu lhe dar três bolachas, mas viu-vos e já não as quer. Sempre que vem alguém de fora para as caminhadas, ele vai na frente, a mostrar o caminho (e eu quase que via o cão a chamar-nos com a patinha para o seguirmos).

Não andou sempre à nossa frente nem nos ensinou o caminho, porque desaparecia frequentemente em correrias e mergulhos ora em poças de lama ora no rio Tejo. Fez, no entanto, os 11 km do Trilho das Jans connosco. Acompanhou-nos, primeiro, por uma estrada alcatroada e, em seguida, por um caminho de terra entre muros e campos com azinheiras, oliveiras, sobreiros, alguns vinhedos e flores mil. Continuou a seguir-nos quando avançámos em direção ao Tejo e vimos a Barragem do Fratel do cimo dos montes e também quando descemos acentuadamente até à margem, as mãos agarradas a cordas para não escorregarmos.

Já ao pé ao rio, desapareceu durante muito tempo, surgindo mais à frente todo molhado e feliz. Percorremos juntos o muro de sirga que segue paralelamente ao Tejo, um caminho de pedra com 3 km de extensão, a partir do qual pessoas e animais puxavam os barcos (a sirga era o cabo de sisal utilizado para tal) – muro, esse, que era essencial para a navegação fluvial até ao Porto do Tejo, em Vila Velha de Rodão. Depois do muro de sirga, para nós a parte mais bonita do trilho, chegámos a um cais onde um barco de pesca chorava sozinho. E, finalmente, subimos – os três com a língua de fora – os montes que nos levariam de volta à estrada alcatroada, a Amieira do Tejo e ao seu castelo com quatro torres.

Antes de chegarmos, porém, o Saddam fugiu outra vez, reaparecendo, por fim, com metade do corpo coberto de lama. E foi assim que entrámos na aldeia: ele à nossa frente, numa alegria cheia de pulos por estar de volta a casa, e os habitantes de Amieira a cumprimentarem-nos amigavelmente, enquanto lhe perguntavam por onde tinha andado e lhe traziam comida à rua. Só espero que um deles lhe tenha dado um valente banho quando fomos embora.

Guia prático para fazer o Trilho das Jans

O PR1 NIS Trilho das Jans é um dos 9 percursos pedestres sinalizados da região de Nisa.

Caracterização do percurso

  • Tipo de percurso: circular
  • Início / Fim: junto ao Castelo de Amieira do Tejo
  • Sentido recomendado do percurso: contrário aos ponteiros do relógio
  • Distância: 11 km
  • Duração: 4 horas
  • Dificuldade: algo difícil
  • Sinalização: o percurso está bem sinalizado
  • Folheto informativo

Época aconselhada

Apesar do percurso poder ser feito em qualquer altura do ano, na nossa opinião a melhor época é a primavera, quando os campos estão floridos e as temperaturas são amenas. No verão, convém ter algumas precauções com as temperaturas elevadas que se podem fazer sentir e, no inverno, com o piso escorregadio.

Recomendações

  • Escolher um dia fresco;
  • Levar bom calçado de caminhada;
  • Levar também: água e comida (como por exemplo: chocolates, barras energéticas, fruta e frutos secos); uma mochila pequena para ir com as mãos livres e, finalmente, chapéu e protetor solar, sobretudo durante o verão.

Onde comemos

Taverna da Vila, em Nisa: a partir da primavera e nos fins-de-semana de sol, o restaurante situado no centro de Nisa, muda-se para um quintal de uma casa típica da região, chamado Quintal da Festa, onde se recriam as festas de casamento tradicionais. À mesa, levam produtos da gastronomia regional, como: carne do alguidar, febrinhas da matança, além de sopa de feijão das festas e ossos de assuã, cozinhados em grandes potes de barro durante largas horas e ao ar livre. O espaço tem ainda uma casa-museu com divisões que contam costumes de outros tempos, como “o quarto da noiva” onde esta exibia o seu enxoval para o vender no dia do casamento e “o quarto da mestra”, onde as meninas aprendiam a fazer os célebres bordados e rendas de Nisa.

Onde dormimos

Monte Filipe Hotel & SPA: é um hotel de quatro estrelas localizado na aldeia de Alpalhão, perto de Nisa. Gostámos do pequeno-almoço e dos quartos modernos, decorados com temas ligados ao artesanato local, como a olaria, os bordados e as rendas de bilros. Tem uma piscina exterior, assim como um spa e uma piscina interior aquecida. O restaurante Chaparro, mesmo no hotel, faz parte do guia de restaurantes certificados do Alentejo e priveligia os produtos tradicionais da região.

Reservar Monte Filipe

O que visitar nas proximidades

  • O Castelo de Amieira do Tejo: com quatro torres em cada ângulo, foi construído no séc. XIV e fez parte da linha de defesa do Tejo;
  • Nisa e o seu excelente Museu do Bordado e do Barro, bem como a “Valquíria”, uma obra de Joana Vasconcelos, produzida com a colaboração de artesãos de Nisa;
  • O Conhal do Arneiro e o respetivo centro interpretativo;
  • O Monumento Natural das Portas de Ródão, onde está uma das maiores nidificações de grifos de Portugal.

Caminhada realizada no dia 6 de Maio de 2017
Mochila: Kraxe Wien

Se gostou deste artigo, pode deixar um comentário ou seguir o Facebook e o Instagram do Viagens à Solta. A si não custa nada e a nós motivar-nos-á a partilhar mais experiências de viagem.

10 Comentários

  1. Amei tudo!!! O texto, as fotos e o cão 🙂 Parabéns!

  2. Boa noite, como habitante de Amieira de Tejo, queria só fazer aqui umas ressalvas. Em primeiro lugar a historia que lhe contaram do cão é totalmente mentira chegando mesmo a roçar o ridículo, pois em nada corresponde á verdade. Em segundo lugar, Amieira do Tejo não só é a aldeia mais bonita do concelho de Nisa como é também das mais bonitas do distrito de Portalegre, e como tal resumir esta visita a "Chama-se Saddam e é por causa dele que nunca esqueceremos Amieira do Tejo" é de tal mau gosto que para mim torna-se super difícil de compreender. Ainda assim qualquer pessoa é livre de dar a sua opinião (o que para mim é um direito fundamental de todos nós) mas a internet ao mesmo tempo que é maravilhosa em tantas outras coisas é ao mesmo tempo horrível. Espero que se regressar dedique um pouquinho mais de tempo a conhecer realmente a terra e a falar com o maior número de moradores possível a fim de ter a experiência turística verdadeira, e não este turismo social dos caça likes com fotos "maravilhosas" e um texto miserável!

    Continuação de um excelente dia!

    Cumprimentos, João Casimiro

    • Caro João Casimiro:
      Ninguém estará muito interessado em saber a verdadeira história de Saddam. Já temos uma e a que temos serve. Ao ler e ver as imagens deste post, também não será o Saddam a razão de outras pessoas ficarem interessadas em fazer esta caminhada. Quando se lê “Chama-se Saddam e é por causa dele que nunca esqueceremos Amieira do Tejo” também temos que ler o resto. E lendo tudo, percebemos o alcance desta frase: uma terra linda com um povo amável que tão feliz faz aquele cão é certamente um local paradisíaco. As qualidades das gentes e da terra são refletidas na liberdade e na felicidade do Saddam. As fotos do artigo estão também fantásticas e o caro João Casimiro, se realmente pertence a esta terra e a este povo, só poderá ficar contente pela forma muito positiva como a Sofia e o Paulo descrevem a sua experiência e motivam muita gente a repetir a experiência deles.

  3. Caro João,

    A história do cão foi-nos contada por uma moradora de Amieira do Tejo e confirmada por outros moradores com quem falámos no final da caminhada. Se é mentira como diz, qual é a história verdadeira?

    Gostaríamos que compreendesse que este texto não é sobre a sua aldeia, mas sobre a nossa experiência no Trilho de Jans e, em relação a isso, só nós sabemos "o que nunca esqueceremos".

    Já que não gostou, sugiro que escreva o João um texto sobre Amieira do Tejo, com sugestões do que se deve visitar. O desafio está lançado 🙂 Ficamos a aguardar.

  4. Já ví gente azeda nesse mundo, mas como o João…. ainda está por nascer….

    Gostaria de dizer que o que me atrai a conhecer os lugares mais escondidos de Portugal é exatamente a narrativa colorida e detalhada de Sofia que como ninguem sabe descrever os aromas e sabores da sua amada terra.

    Regina Stella
    São Paulo – Brasil

  5. Olá Sofia
    Parabéns pelo vosso Blog
    Foi graças a ele que fui a Amieira do Tejo (como vê Sr. João, deu resultado a crónica da Sofia), adorei o Trilho, passei o caminho a lembrar-me da sua crónica e de como batia certo o comportamento da Saddam, EXPÉCTACULAR, também gostei de Amieira do Tejo, pese embora ter sido uma segunda feira e o Castelo estar fechado, um dia vou ter de voltar.
    Vou voltar a seguir os seus passos em Setembro vou aos Picos da Europa, espero que o resultado final seja o mesmo que no Trilho das Jans.
    Obrigado e continuação de boas viagens

  6. Paulo Gonçalves Ribeiro

    Ao “googlar para a elaboração de uma travessia de BTT; na etapa entre Vila Velha de Rodão e Belver, deparei-me com este maravilhoso trilho do “caminho de Sirga”. Fantásticas fotos que ilustram na perfeição o bonito texto.
    Já tenho alguns tracks de GPS que me permitem incluir este “desvio” na rota.
    Obrigado pela “ajuda” e pelo incentivo que as imagens deram.

  7. Paulo Gonçalves Ribeiro

    Sim, Paulo. Mesmo que não seja totalmente ciclável nos cerca de 3km, já fizemos caminhos piores.

  8. A Amieira do Tejo, é mais uma pérola deste Portugal encantado e encantador, e o Sadam um velho companheiro que nunca se esquece de me felicitar entre tantos outros cumprimentos simpáticos, com que sou recebido nas vezes em que visito esta vila histórica e tantas vezes históriada com episódios de valentia, mística, encanto e boa vontade, como este trabalho que acabei de ler.
    As ruas silenciosas por este Portugal desertificado, falam de paz e harmonia por entre o casario com que o Alentejo sempre nos habituou, numa claridade de ” estilo” tão próprio.
    De elogiar a atenção com que todas as suas gentes têm cuidado da sua história e da Vila que nos espera a todos nós, depositada num pequeno vale onde repousa a seus pés o rio Tejo.
    Um dia destes conto visita lá de novo e passar lá um fim de semana. Estou curioso de fazer a viagem no comboio da Beira baixa, esquecer me do carro em Lisboa e na companhia de um livro ou de uma revista, fazer a viagem até à barca da amieira sempre acompanhado por este Tejo de paisagens e momentos únicos. Depois atravessar o rio para sul na nova barca, pequeno percurso onde as lendárias jãs teceram um vestido que cobriu a nossa retratada rainha Santa, quando do seu cortejo funerário a caminho de Coimbra.
    Depois uma boleia do João o taxista da vila, ou de alguém que se preste a levar me estrada acima, revigorante trajecto que já fiz a pé também.
    Nos dias de hoje a Amieira do Tejo, é dos meus raros tesouros, onde sonho e me encanto entusiasticamente com a vida.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *