O Parque Nacional da Peneda-Gerês foi a primeira área protegida criada em Portugal, em 1971. Fica no norte do país, partilhando fronteira com a Galiza. Predominantemente montanhoso e granítico, este espaço natural é pontuado por inúmeros riachos, lagoas e cascatas de águas límpidas e ainda por matas misteriosas, onde apetece caminhar.

Há dezenas de percursos pedestres assinalados em todo o parque. Quem estiver interessado, poderá descarregar os respetivos folhetos informativos a partir deste website.

Há, no entanto, outros percursos que, por falta de sinalização, se devem fazer na companhia de um guia, como é o caso do da Fenda da Calcedónia. O Parque de Campismo da Cerdeira, perto do Campo do Gerês, organiza diversas caminhadas deste tipo.

O grupo no topo dos rochedos da Calcedónia

No fim-de-semana de 21 de Setembro de 2013, eu e mais três amigos decidimos fazer esta caminhada, cujas fotos prometiam tratar-se de um passeio diferente dos que já tínhamos feito no Gerês.

Fizemos a marcação pela Internet, com o mínimo exigido de um dia de antecedência e, às 9 horas da manhã de sábado, estávamos na receção do parque de campismo, prontos para começar a aventura, na companhia de mais duas pessoas.

O guia levou-nos numa carrinha até ao local do início do trilho, que nos conduziria ao penedo da Calcedónia, conhecido pela mítica fenda que o atravessa de um lado ao outro, levando quem a percorre ao topo de um penedo, com vistas magníficas sobre a serra.

Da estrada, descemos o trilho pedregoso até um vale amplo, onde algumas vacas barrosãs pastavam e, mais ao longe, “estão a ver, são as serras que aparecem na fotografia da água do Fastio”, referiu o nosso anfitrião orgulhoso.

Quando já estávamos perto dos animais, apercebemo-nos que uma jovem que nos acompanhava era bastante medrosa e entre “ais, que medo”, “está a olhar para mim!”, “eu não consigo!”, lá passámos por entre os imperturbáveis bovinos.

Depois do vale, o trilho sobe sem dificuldade até ao penedo da Calcedónia, onde nos esperava o grande desafio da caminhada: a passagem pela estreita fenda, no meio de imensos blocos graníticos.

É nesta altura que o guia se torna mais imprescindível, não só para identificar o penedo em causa, o qual passa completamente despercebido, mas também para indicar a melhor forma de ultrapassar os vários obstáculos, à primeira vista intransponíveis, que se apresentam ao longo da fenda.

Para nos animar, lá refere que um casal de 70 anos e uma grávida de 5 meses conseguiram passar, argumentos que não foram suficientemente convincentes para a nossa acompanhante medrosa, que à primeira dificuldade gritou: “Eu não consigo!”.

Com a ajuda do cicerone, lá conseguiu elevar a perna a uma altura aceitável, agora força nos braços e upa, já está. Depois houve outras pedras que tivemos de transpor, umas mais fáceis do que outras. Ora com a ajuda dos braços ora com as pernas e as costas ora com o joelho do guia a fazer de degrau, lá fomos avançando na fenda escura.

Porque não dava para voltar atrás e graças à ajuda e paciência da pessoa que nos conduzia, os lamentos da jovem com medo foram-se desvanecendo e, de desafio em desafio, fomo-nos aproximando cada vez mais da saída, “cuidado com a cabeça no fim!”.

Respirando fundo, contemplámos então em silêncio a imensa vista sobre o Gerês, as suas montanhas salpicadas de penedos, ao longe o Santuário de São Bento da Porta Aberta e, mais além, a Barragem da Caniçada.

Com a sensação de missão superada, regressámos ao vale das vacas barrosãs, passando por várias fragas com formas curiosas e, por fim, à carrinha.

Como disse um de nós quando questionado sobre a opinião acerca do passeio, foi muito melhor do que estávamos à espera e do que sugeriam as fotos que tínhamos visto.

Guia prático para fazer o trilho da Fenda da Calcedónia

Caracterização do percurso

  • Distância: 5 km
  • Dificuldade: Média
  • Duração: 3 horas

Recomendações

  • Levar calçado confortável, preferencialmente botas;
  • Usar calças (acreditem: as silvas e as pedras na fenda magoam a valer);
  • As calças não devem ser justas, pois travam os movimentos;
  • Levar água;
  • Evitar carga desnecessária (para além de pesar, a fenda é estreita e torna-se complicado passar);
  • Não é aconselhável fazer o percurso com chuva e neve, já que as pedras se tornam escorregadias e perigosas.

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Boas viagens à solta!

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7 Comentários

  1. Olá Sofia! Gostei muito de conhecer o vosso blog e de ler o artigo sobre a caminhada no Gerês. Parabéns!
    Mas o que me leva a escrever-vos é o seguinte: eu já fiz essa caminhada, precisamente quando estava grávida de cinco meses! Por isso acho que o guia (que me parece pelas fotos o mesmo que nos guiou) se referia a mim 🙂 Achei o máximo quando li a referência à nossa caminhada passados 8 anos (a idade que tem agora o Luís). Obrigada.
    Continuem a deliciar-nos com os vossos passeios. Eu também conto escrever sobre alguns tesouros do meu norte em breve, no meu site portoenvolto.com. Vejam se gostam do que já lá está. Gostaria de saber a vossa opinião. Beijinhos!
    Vera Dantas

  2. Vera, o mundo é mesmo pequeno! Quando escrevi este texto, estava longe de imaginar que iria conhecer a destemida jovem grávida que atravessou a Fenda da Calcedónia. Não acredito que mais ninguém no teu estado o tenha feito. Por isso, deves ser mesmo tu! Mais logo vou espreitar o teu blog e comentarei por lá. Obrigada por te apresentares. Um beijinho, Sofia

  3. O Gerês e de facto lindo e maravilhoso! E uma obra imenso portugueses não conhecerem, mas se calhar também é isso que permite continuar a ter magia!

  4. Podem.me falar mais sobre visitas de grupo? Quando? COmo se reserva?

  5. Caro NUBA, para mais informações deverá questionar o Parque de Cerdeira. São eles que promovem estas atividades.

  6. No meu tempo o guia éramos nós… Por nossa conta e risco calcorreámos tudo nessa serra.
    Naquele tempo ainda se podia acampar em Albergaria. Foram das melhores férias que passei na vida.

  7. Sofia, sou brasileira e seu blog é uma grata surpresa ! A mim tb me faz feliz viajar ( e viver!) à solta !! Adoro Portugal , e neste ano tenho um pequeno projeto de trabalho/ lazer: passar 3 meses colecionando ” saberes” portugueses, incluindo olhares, aromas e o ritmo das gentes ! Com certeza nas minhas próximas andanças, estará incluído o interessantíssimo Gerês, e seu roteiro será de grande ajuda. Recomendas algum guia/site além do website oficial do Parque ? Gostei de tudo que descreveste e da forma como o fizeste, e te agradeceria as possíveis sugestões. Obrigada a vcs por nos mostrar com poesia o seu lindo país .

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