Um faraó e uma rainha. Dois deuses irmãos. Um líder espiritual muçulmano e uma modelo. São três histórias de amor que trouxe do sul do Egito e que te vou contar.

Vou-tas contar, porque os blogues de viagem também se devem fazer de histórias e não só de listas dos “melhores” locais a visitar, repetidas ao infinito, numa luta pelos lugares cimeiros nos motores de pesquisa. Vou-tas contar, porque gostas de ler e não viajas para cumprir uma lista de sítios obrigatórios nem para colecionar fotografias pelo mundo nem para ser popular nas redes sociais. Não é isso que te faz fugir dos dias iguais, do mesmo modo que não foi para isso que nós criámos um blogue de viagens. Finalmente, vou-te contar estas histórias, porque acredito no amor.

Ramsés II e Nefertari

Já ouviste falar das pirâmides de Gizé. Aliás, quando pensas no Egito, é a elas que associas o país. Já Abu Simbel, provavelmente não conheces, mas bastará veres uma fotografia para quereres ir a este lugar remoto, situado no sul do Egito, já muito perto da fronteira com o Sudão.

Se as pirâmides de Gizé foram construídas nos primórdios do Egito faraónico, mais propriamente na 4ª dinastia (séc. XXVI a.C); os templos de Abu Simbel foram edificados no seu auge, especificamente na 19ª dinastia (séc. XIII a.C), por Ramsés II, o faraó mais poderoso do Antigo Egito.

O que farias se fosses tu esse homem, o mais forte de uma das civilizações mais notáveis da história? Como gostarias de ser recordado? E como o conseguirias?

Em Abu Simbel, Ramsés II mandou construir dois templos dentro das montanhas. O maior desses templos (Grande Templo) dedicou-o às seguintes divindades: Amun (o deus criador do mundo), Ra-Horakhty (o deus do sol nascente), Ptah (o deus dos artesãos e dos arquitetos) e o próprio Ramsés II, o único faraó venerado como deus durante a vida. Na fachada do templo, quis que fossem esculpidos quatro colossos representando-o sentado no seu trono e, por baixo, esculturas mais pequenas, retratando membros da sua família, nomeadamente a sua esposa Nefertari, a sua mãe, dois filhos e seis filhas. Quanto ao interior do templo, decorou-o com oito estátuas suas, associado a Osíris, o deus egípcio do renascimento ou da eternidade, e cobriu as paredes com gravuras da sua grande vitória em Cadexe (atual Síria), entre outras conquistas na Líbia e na Núbia, além de gravuras dele e da rainha Nefertari a prestarem homenagem aos deuses.

Ao lado do seu, Ramsés II desejou que fosse construído um segundo templo (Pequeno Templo) para Nefertari, a sua primeira mulher, associando-a a Hator, a deusa egípcia do amor e da beleza. Na fachada deste templo, também se vêem grandes figuras: quatro de Ramsés e duas de Nefertari. Além de ter sido a única mulher a quem Ramsés II dedicou um templo (e a segunda vez que um faraó o fez), o Pequeno Templo é ainda mais notável, porque no Antigo Egito as estátuas das esposas eram muito mais pequenas do que as dos faraóes, não ultrapassando os seus joelhos, enquanto que aqui são do mesmo tamanho, uma prova do amor que o faraó sentia.

Abu Simbel não imortaliza, pois, apenas Ramsés II. O faraó mais poderoso do Antigo Egito quis também que o seu amor por Nefertari fosse recordado, fazendo-nos refletir sobre a importância do amor na vida humana.

Ísis e Osíris

Os antigos egípcios gravaram muitas histórias de amor nas paredes dos templos. Uma das mais famosas é a de Ísis e Osíris, duas das principais divindades da mitologia egípcia, cujas ilustrações podemos admirar num dos templos de Philae, em Assuão.

Conta a lenda que Geb, o deus da terra, e Nut, a deusa do céu, tiveram quatro filhos: Osíris e a sua esposa Ísis, Set e a sua esposa Néftis. Com inveja de Osíris por este ter herdado o reino do pai, Set engendrou um plano para matá-lo e usurpar o seu poder. Quando Osíris estava a dormir, Set tirou as suas medidas e mandou construir um extraordinário sarcófago com base nelas. Organizou um banquete e lançou um desafio: quem coubesse no sarcófago, ganhá-lo-ia de presente. Todos os deuses entraram, mas apenas Osíris encaixou na perfeição. Nesse momento, Set fechou o sarcófago e atirou-o ao rio Nilo, matando dessa forma o irmão.

Ísis sofreu profundamente com a morte do marido e partiu à procura do seu corpo. Conseguiu recuperar o sarcófago e escondeu-o. Set, porém, descobriu-o e, desta vez, esquartejou o corpo de Osíris em 14 partes, enterrando-as em diferentes lugares do Egito.

Depois de ultrapassar uma série de obstáculos, Ísis acabou por conseguir encontrar todos os restos mortais do amado, com exceção do seu orgão genital, devorado por um peixe. Graças aos seus poderes mágicos, a deusa pôde, assim, dar uma vida póstuma a Osíris e até teve um filho com ele. Osíris tornou-se, então, o deus do submundo e do renascimento, concedendo uma nova vida aos homens depois da morte. Por sua vez, Hórus, o filho de ambos, acabaria por conseguir vingar a morte do pai, recuperando o seu reino e restabelecendo a ordem na Terra.

Ainda segundo a lenda, Ísis encontrou o coração de Osíris na ilha de Bigeh, no rio Nilo, onde construiu uma sepultura simbólica que visitava todos os dias. Perto de Bigeh, numa outra ilha chamada Philae, no séc. I a.C. foi construído um templo para homenagear a própria deusa Ísis, símbolo da fertilidade e da maternidade, o qual contém magníficas ilustrações de Ísis e Osíris juntos.

O Templo de Ísis é o principal monumento no grupo de Templos de Philae, situados nas proximidades de Assuão. No séc. XX, graças a uma campanha internacional lançada pela UNESCO, esses templos foram desmantelados pedra a pedra e movidos para Agilika, uma outra ilha próxima. Ficaram, assim, a salvo da subida das águas do Nilo causada pela construção da Grande Barragem de Assuão. O mesmo aconteceu com os templos de Abu Simbel, um trabalho contra o relógio que contou com a participação técnica e financeira de vários países – considerado o empreendimento arqueológico mais épico de todos os tempos. Em 1979, tanto Abu Simbel como os Templos de Philae foram classificados pela UNESCO como Património Mundial.

Aga Khan III e Om Habibeh

Aga Khan III, o líder espiritual dos muçulmanos ismaelitas, conheceu uma rapariga pobre chamada Yvette Labrousse, nascida na Tunísia em 1906. Aos 25 anos, Yvette foi eleita Miss França, país para onde tinha ido viver com os pais em criança. Como Miss, viajou por todo o mundo e, quando chegou ao Egito para participar numa cerimónia em sua homenagem, o Aga Khan estava presente. Apesar da grande diferença de idade entre ambos (30 anos), eles apaixonaram-se e ela aceitou o seu pedido de casamento. Depois de se casarem, Aga Khan levou a esposa (a qual adotou o nome Om Habibeh) para Assuão, onde passaram a lua-de-mel. Encantados com a beleza da cidade, passaram a visitá-la frequentemente.

Pouco antes da sua morte, o príncipe Aga Khan III escolheu um local na margem oeste do Nilo, em Assuão, para edificar o seu mausoléu, onde viria a ser sepultado em 1957. Após a morte do marido, Om Habibeh retirou-se da vida social. Tinha então 51 anos e conservava uma grande beleza. Apesar disso, preferiu passar a maior parte do tempo em Assuão, onde construiu uma casa. Durante 43 anos, Om Habibeh visitou o túmulo do marido, aí colocando uma rosa vermelha todos os dias. Quando estava fora, incumbiu o jardineiro de o fazer por si.

No ano 2000, como desejou no seu testamento, Om Habibeh foi enterrada junto ao marido e a relação entre ambos é amplamente recordada como uma grande história de amor. O seu mausoléu fica isolado no topo de uma colina junto ao Nilo e é visível de toda a cidade de Assuão.

Conclusão

Abu Simbel, Philae e Assuão: há quem visite estes três locais para conhecer obras-primas do Egito faraónico. Podes vê-los com os teus próprios olhos, fotografá-los e até obter muitos “gostos” nas redes sociais, mas já os antigos egípcios sabiam que é o amor que dá sentido às nossas vidas.

Guia prático para visitar Abu Simbel e os Templos de Philae

Abu Simbel

Como chegar a Abu Simbel

Abu Simbel fica a 280 km de Assuão, já muito perto da fronteira sudanesa. É possível ir de Assuão a Abu Simbel de avião (a EgyptAir tem voos diários), de cruzeiro pelo lago Nasser, de autocarro, de mini-autocarro ou num carro privado com motorista.

Nós viajámos num carro privado com motorista. A viagem demora cerca de 3 horas para cada lado, ao longo de uma longuíssima estrada em bom estado, que atravessa o deserto em linha reta. A meio, existe um pequeno café onde é possível ir à casa de banho e consumir algo. De resto, a paisagem é sempre igual e sonolenta, com exceção das impressionantes miragens que observámos a meio do dia: autênticos lagos que chegavam a refletir as pequenas dunas de areia do deserto.

O automóvel que nos levou a Abu Simbel era moderno, proporcionando-nos todo o conforto necessário e o motorista esforçado e amigável apesar de quase não falar inglês.

Quase todos os hotéis em Assuão fornecem visitas guiadas a Abu Simbel. Nós contratámos o serviço através do Nubian Lotus, o nosso alojamento, ainda antes da nossa chegada ao Egito.

Preços praticados pelo Nubian Lotus:

  • Mini-autocarro partilhado: 25 USD/pessoa;
  • Carro privado com motorista: 100 USD (2 pessoas);
  • Carro privado com motorista: 150 USD (3 pessoas);
  • Mini-autocarro privado: 200 USD (4 a 8 pessoas).

Todos os preços incluem um pequeno-almoço preparado pelo hotel, para comer durante a viagem. O mini-autocarro partilhado parte normalmente às 3:30 da manhã enquanto a partida dos outros meios de transporte costuma ser entre as 4 e as 7 da manhã.

Autorização de trânsito

Pelo menos um dia antes da viagem, é necessário disponibilizar uma fotocópia do passaporte, para que a transportadora possa registar os visitantes junto da polícia local e, assim, obter uma autorização especial de circulação até Abu Simbel.

Preços para visitar Abu Simbel

  • Entrada: EGP 215;
  • Se quiser tirar fotografias no interior dos templos, terá de pagar mais EGP 300.

Onde dormir em Abu Simbel

Ainda que a maioria dos visitantes opte por uma fazer uma viagem de ida e volta desde Assuão, existem 5 hotéis em Abu Simbel, onde é possível passar a noite.

Templos de Philae

Como chegar aos Templos de Philae

Uma vez que os Templos de Philae se encontram numa ilha, tem de se apanhar um pequeno barco para chegar ao local. Do centro de Assuão até ao cais, são cerca de 10 km (20 minutos de carro). Nós decidimos conjugar no mesmo dia as visitas a Abu Simbel e a Philae, contratando o tal carro privado com motorista.

Preços para visitar os Templos de Philae

  • Entrada: EGP 140;
  • Barco até aos templos: EGP 50 (é preciso negociar com os condutores).

Os preços indicados no artigo são os que vigoravam em Fevereiro de 2019.

Mochila: Kraxe Wien

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3 Comentários

  1. O Egipto de Eça de Queirós. Uma viagem única, Uma História de amor…única!

  2. ADOREI! Tudo: as fotos, o tom, as reflexões, as histórias, a sequência, as informações. Fiquei ainda com mais vontade de ir ao Egito…

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