Visitámos o Egito de sul para norte, no mesmo sentido em que corre o Nilo, o rio mais extenso do mundo.

Assuão é a cidade mais meriodional do país e, à sua frente, fica Elefantina, uma pequena ilha no meio do Nilo. Foi aí que começámos a nossa viagem pelo Egito, sentados no terraço do Nubian Lotus, o hotel onde passámos a primeira noite no país. Daí avistámos não só o Nilo pela primeira vez, mas também o que não tínhamos imaginado: a ilha de Kitchener, onde há um jardim botânico, e as dunas douradas do deserto.

Existem vários monumentos do Antigo Egito para ver nas proximidades de Assuão. Contudo, não nos apetecia seguir uma lista de locais a visitar como quem coleciona cromos numa caderneta. Queríamos descansar, relaxar e atenuar o sofrimento causado pela perda de uma das pessoas mais importantes das nossas vidas.

O Nubian Lotus é gerido pela Marta, uma italiana que se casou com um egípcio. Disse-nos que a ilha Elefantina era muito segura. Por isso, nessa manhã, fomos simplesmente passear a pé pela ilha.

Em Elefantina, com exceção de umas ruínas, já nada resta da sua importância no comércio de marfim nem do reino de Abu que, por volta de 3000 a.C., aí estabeleceu uma fortaleza que acolhia os exércitos que enfrentavam a Núbia, a temida inimiga do sul.

Atualmente não circulam carros. Os caminhos são todos de terra, alguns cruzados por canais de água que regam os campos, onde vimos alguns homens a trabalhar, indiferentes à nossa passagem.

A Núbia é atualmente uma região partilhada pelo Egito e pelo Sudão. Ao longo da história, ora fez parte do Egito ora foi um estado rival onde se desenvolveu aquela que terá sido a civilização negra mais antiga de África. Atualmente, o seu povo destaca-se pela tez mais escura e preserva tradições, uma cultura e um dialeto próprios.

Em Elefantina, existem duas aldeias núbias: Siu e Kutti. Passámos por casas com telhados arredondados e paredes pintadas com cores vibrantes, bem como por murais retratando cenas do quotidiano: crianças a brincar, pessoas a festejar, paisagens e animais.

Às tantas, vindo não sabemos de onde, apareceu à nossa frente um senhor de idade, de pele escura e cabelo todo branco, sorriso aberto só com um dente e olhos tristes. Apresentou-se como sendo o chefe local e ofereceu-se para nos acompanhar. Imaginei que teria histórias interessantes para nos contar e concordei. Não: nem uma história e, depois de umas voltas, levou-nos a um café para consumirmos e vermos crocodilos bebés em bacias de plástico. No fim, pediu-nos mais dinheiro do que o que lhe havíamos oferecido espontaneamente.

Depois disso, preferimos seguir sozinhos pela ilha, tendo parado no Animalia, um museu não oficial, onde uma jovem nos abriu a porta de uma casa núbia. Enquanto rilhava pevides, conduziu-nos a um pátio interior com o chão coberto de areia fina, mantida lisa.

– O chão das casas tradicionais é assim, para podermos ver se entra alguma cobra ou escorpião.

A toda a volta, havia bancos e, em três paredes, estavam expostos diversos objectivos usados nas lides domésticas, quase todos feitos a partir de palmeiras. Na quarta parede, havia uma porta pintada com riscas coloridas e outros desenhos, entre as quais um avião.

– É comum quem vai a Meca pintar um avião ou um navio em sua casa – continuou a explicar a jovem. Aqui também podem ver um olho de Fátima, uma cruz cristã e um sol faraónico. Sabem porquê? Porque, por trás desta porta, fica o quarto do bebé. O povo Núbio é bastante supersticioso e, se alguma dessas coisas não proteger o recém-nascido do mau olhado, uma das outras há-de resultar.

O quarto do bebé era uma divisão pequenina sem janelas, mas cheia de bonitos e coloridos pratos de sisal. Noutras divisões da casa, havia uma coleção de animais embalsamados (uma forma dos núbios preservarem companheiros amados), uma mostra de rochas e uma interessante coleção de fotografias da região da Núbia antes de ser inundada pelo Lago Nasser.

Resultante da construção da gigante Barragem de Assuão entre 1958 e 1970, o Lago Nasser ocupou grande parte da Núbia e inundou não só inúmeras aldeias, mas também centenas de túmulos, templos e igrejas.

Depois de almoçarmos perto do cais de Elefantina, atravessámos no “ferry” público para Assuão, para visitarmos o Museu da Núbia, onde se conserva uma importante parte da história, cultura e arte desta civilização.

À saída do cais, fomos a pé até ao museu enquanto íamos sendo abordados por taxistas, alguns cheios de sentido de humor.

– Táxi?
– Não, vamos a pé.
– A pé? Partes-me o coração!

Outro, encostando-se a nós junto ao passeio, sempre em andamento:

– Táxi?
– Não, obrigado.
– É barato, onde querem ir?
– Não, obrigado.
– Eu levo-vos.
– Não, obrigado.

Isto repetido várias vezes até que, a rir-se à gargalhada, explicou:

– O que querem? Estou aqui sentado o dia todo. Tenho de fazer alguma coisa.

O Museu da Núbia, fundado em 1997 graças à Campanha Internacional para Salvar os Monumentos Núbios, apoiada pela UNESCO, era muito mais interessante do que estávamos à espera. Mais de 3000 objetos resgatados estão expostos em grandes salas, com explicações escritas de forma clara, representando diferentes períodos: pré-histórico, faraónico, greco-romano, cóptico (cristão) e islâmico.

Gostei especialmente de ver ao vivo o que estudei nos livros de história sobre o Antigo Egito. Fiquei admirada com a perfeição das estátuas e das jóias e impressionada não só com o que se perdeu sob o Lago Nasser, mas também com o esforço internacional para deslocar os monumentos históricos mais importantes da Núbia (como os Templos de Philae e de Abu Simbel) para outros locais, de modo a não ficarem submersos devido à construção da barragem.

Depois do museu, fomos a pé até ao jardim Feryal para vermos o pôr-do-sol. Jovens a tirar “selfies”, famílias sentadas sobre mantas na relva, pessoas a conversar, crianças a brincar – as pessoas são parecidas em todo o mundo. Após darmos uma volta pelo jardim, sentei-me sozinha num banco defronte para o Nilo. Nesse momento, ainda não sabia, mas o Nilo é ainda mais bonito em Assuão. Há falucas (pequenos barcos à vela) a cruzar suavemente o rio, inúmeras ilhas, intrigantes rochedos graníticos, margens verdejantes e, logo atrás, as dunas douradas do deserto.

Às tantas, chegou junto de mim o Paulo com um senhor de meia-idade que recordaremos como “o professor”. Disse-nos que queria conversar um pouco connosco para trocar ideias com estrangeiros e treinar o inglês. Contou-nos que era professor de físico-química apesar de ser doutorado em psicologia; que o seu desejo era dar aulas na Universidade de Assuão, só que não arranjava lugar, e que gostava muito de ler. No fim, perguntou-nos se lhe podíamos enviar uns livros quaisquer em inglês pelo correio.

Ao final da tarde, fomos ao “souk” caminhar pelas ruas do mercado tradicional de Assuão, perfumado de especiarias. Como ocidentais, é praticamente impossível passarmos despercebidos num mercado egípcio. Olham para nós, perguntam-nos de onde somos, tentam adivinhar a nossa nacionalidade, aliciam-nos a comprar alguma coisa. Pelo menos, é assim na parte mais turística do “souk”, onde se vende sobretudo artesanato.

Todavia, há uma parte mais genuína dos mercados, onde a população local se abastece diariamente de fruta, legumes, carne, pão e especiarias. É dessa parte que eu mais gosto e onde me sinto mais à vontade. Aí, apesar de continuarmos a ser o centro das atenções, sentimos que as pessoas se surpreendem e alegram mais do que tentam lucrar com a nossa presença. Comprámos uns bolos com tâmaras numa banquinha de rua e o vendedor ofereceu-nos mais um. Fomos abordados por crianças sorridentes: ora cumprimentando-nos ora metendo conversa em inglês ora dizendo simplesmente “welcome” (bem-vindos), sem esperar nada em troca. E é mesmo bom quando esses momentos acontecem.

Guia prático para visitar Assuão

Como nos deslocámos em Assuão

Visitámos tanto Assuão como a ilha Elefantina sempre a pé. Há, todavia, bastantes táxis a circular na cidade. Os preços são bastante baratos, mas devem ser previamente negociados com os condutores.

O que poderá visitar em Assuão

  • Museu da Núbia (Horário: 9:00 – 21:00 | Preço: EGP 140);
  • Jardim Feryal;
  • Rio Nilo ao pôr-do-sol, a bordo de uma faluca (preço a ser negociado com o condutor);
  • “Souk”, o mercado de rua;
  • Cornish El Nil, a rua principal da cidade, junto ao Nilo;
  • Ilha Elefantina.

Ferry entre Assuão e a ilha Elefantina

  • Horário: 6:00 – 24:00 (há ligações frequentes)
  • Preço: EGP 5 (o preço é o mesmo para uma viagem só de ida ou de ida e volta)

O que poderá visitar na ilha Elefantina

  • Aldeias núbias de Siu e Kutti;
  • Animalia;
  • Área arqueológica, de que fazem parte as ruínas de Abu e o Nilómetro, que se destinava a medir as cheias do Nilo.

O que poderá visitar nas proximidades de Assuão

  • Jardim botânico, na ilha de Kitchener;
  • Mausoléu de Agha Khan;
  • Túmulos dos Nobres;
  • Mosteiro de São Simão que, no séc. X, acolheu os monges missionários que converteram alguns dos núbios ao Cristianismo;
  • Grande Barragem de Assuão, uma das maiores do mundo;
  • Obelisco Inacabado;
  • Templos de Philae, onde se prestava culto a Ísis, uma das principais deusas do Antigo Egito;
  • Abu Simbel, nomeadamente o Templo de Ramsés II e o Templo da rainha Nefertari, considerados obras-primas do Egito faraónico.

Onde comemos em Assuão

  • Na ilha Elefantina, há alguns restaurantes. Experimentámos o Nubian Dreams, mesmo junto ao cais, cuja comida, não sendo má, não nos deslumbrou. No hotel em que ficámos, também servem refeições, o que nos deu bastante jeito.
  • Os donos do Nubian Lotus recomendaram-nos o El Dokka, um restaurante situado noutra ilha do Nilo, ao qual se chega de barco. Vimo-lo iluminado à noite e achámo-lo muito bonito. No entanto, por falta de tempo, acabámos por não o experimentar.
  • A nossa comida preferida foi a do Gad, um restaurante de rua em Assuão, onde comprámos vários “shawarma” (carne assada num espeto vertical e servida dentro de pão), baratíssimos e deliciosos.
  • Em Assuão, também gostámos de beber o típico carcadé (infusão de flores de hibisco), tanto frio como quente.

Onde dormimos em Assuão

Ficámos alojados no Nubian Lotus, um hotel simples na ilha Elefantina, situado a poucos minutos a pé do cais onde se apanha o “ferry” para Assuão. Além de uma vista magnífica, o alojamento é gerido por um casal muito simpático e prestável: a italiana Marta e o egípcio Osama. Elefantina é muito mais sossegada do que Assuão e nem nos importámos de acordar várias vezes por causa de um burro, pois era impossível não nos rirmos quando o ouvíamos.

Nota: os preços e os horários indicados no artigo são os que vigoravam em Fevereiro de 2019.

Se gostaram deste artigo, podem deixar um comentário ou seguir o Facebook e o Instagram do Viagens à Solta. A vocês não custa nada e a nós motivar-nos-á a partilhar mais experiências de viagem.

Mais artigos sobre o Egito:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *