Há destinos que nos conquistam pela paisagem. Outros pela gastronomia. E há ainda aqueles que conseguem reunir história, tradição, natureza e vinho numa combinação quase perfeita. É precisamente isso que acontece em Monção e Melgaço, no extremo norte de Portugal, junto ao rio Minho e à fronteira com a Galiza.

Durante dois dias, percorremos esta região única dos Vinhos Verdes, onde reina a casta Alvarinho e onde as histórias de dragões, heroínas medievais e produtores apaixonados continuam bem vivas.

Monção: a terra do dragão e da heroína Deu-la-Deu

Festa da Coca em Monção
Festa da Coca em Monção

A nossa visita começou em Monção, uma vila cujo centro histórico esteve outrora rodeado por uma muralha medieval. Ainda hoje, caminhar pelas suas ruas é mergulhar em séculos de história.

Todos os anos, no Dia do Corpo de Deus, realiza-se uma das tradições mais emblemáticas da região: a Festa da Coca. Com origens que remontam ao século XVII, esta celebração coloca frente a frente a Coca, um dragão lendário, e São Jorge, numa representação carregada de simbolismo que continua a atrair milhares de visitantes.

O passeio pelo centro histórico passa inevitavelmente pelo Largo de Camões, onde funcionava a antiga Câmara Municipal, e pela Rua Direita, a principal artéria do antigo castelo. É aqui que encontramos a Casa do Arco, na qual viveu e morreu o poeta monçanense João Verde.

Mais adiante, surge a Igreja Matriz de Monção, cuja origem remonta ao século XIII e que foi profundamente remodelada por D. Dinis no século XIV. Curiosamente, já nessa época existiam referências ao dragão da Coca, visíveis em relevos gravados nas colunas da entrada.

Entre os muitos episódios que marcaram a história local, nenhum é tão célebre quanto o de Deu-la-Deu Martins. Em 1369, durante as Guerras Fernandinas, Monção encontrava-se cercada pelo exército castelhano. A fome apertava dentro e fora das muralhas. Perante o desespero, Deu-la-Deu reuniu as mulheres da vila e recolheu toda a farinha disponível. Com ela, fizeram uma grande fornada de pão. Depois, subiu à torre do castelo e lançou os pães aos inimigos. Convencidos de que a vila ainda possuía abundantes mantimentos, os castelhanos levantaram o cerco e retiraram-se. O episódio transformou Deu-la-Deu na grande heroína de Monção.

Junto ao rio Minho encontram-se ainda vestígios do castelo medieval e da impressionante fortificação que, ao longo dos séculos, chegou a atingir cerca de cinco quilómetros de perímetro defensivo.

O Alvarinho: a alma da região

Monção e Melgaço são o coração da sub-região mais prestigiada dos Vinhos Verdes. Aqui, o Alvarinho não é apenas uma casta: é uma identidade.

Ao contrário da maioria dos Vinhos Verdes, o Alvarinho possui uma longevidade notável e uma graduação alcoólica mínima de 12,5%. Estas características contribuíram para que fosse reconhecido internacionalmente como um dos melhores vinhos do mundo.

Durante a viagem, tivemos a oportunidade de participar na primeira edição do Monção & Melgaço Open Cellars Edition, uma iniciativa que aproxima visitantes e produtores e que ilustra perfeitamente o espírito da região. Aqui, as adegas são frequentemente pequenas estruturas familiares onde quem recebe os visitantes é o próprio produtor. Não há intermediários nem discursos decorados. Há histórias genuínas, conhecimento transmitido em primeira mão e uma enorme paixão pela terra.

Palácio da Brejoeira

Um ponto incontornável é o Palácio da Brejoeira, Monumento Nacional e uma das mais elegantes propriedades senhoriais do país. A visita guiada permite conhecer a história da casa e das suas vinhas, associadas há décadas à produção de Alvarinho de excelência.

Na Quinta do Mascanho, o almoço foi acompanhado por uma prova de espumante Reserva Bruto 2023, Alvarinho Grande Reserva 2021 e Espumante Bruto Reserva 2019, demonstrando a versatilidade da casta.

Já na Quinta Soalheiro, uma das referências incontornáveis da região, encontrámos o equilíbrio entre tradição e inovação. Sob a liderança de uma nova geração, representada por Maria João, a propriedade combina vinhas velhas, investigação, sustentabilidade e experiências de enoturismo cada vez mais diversificadas. No final da visita, provámos alguns vinhos, entre outros produtos locais, no terraço panorâmico de onde se tem uma das melhores vistas da região dos Vinhos Verdes.

Outro exemplo inspirador é a Quinta das Alvaianas, em Melgaço. Fundada há cerca de três décadas, começou literalmente como uma “adega de garagem”, tal como aconteceu com o Soalheiro. Hoje produz Alvarinho biológico e espumantes de elevada qualidade, alguns com graduações alcoólicas que atingem os 14,5%.

Melgaço: vinho, fronteira e memória

Logo à chegada ao centro histórico de Melgaço, encontramos a estátua de Inês Negra, a heroína local que, segundo a tradição, defendeu a vila enfrentando uma adversária castelhana num duelo singular.

A entrada faz-se por uma das antigas portas da muralha, preservando a sensação de regressar a uma época medieval.

Um dos espaços mais interessantes da vila é o Solar do Alvarinho, instalado num edifício do século XVII. Considerado a casa-mãe da Rota do Alvarinho, reúne informação sobre os cerca de 30 produtores do concelho, promove produtos regionais e oferece aos visitantes uma prova gratuita de dois vinhos. Além do vinho, é possível comprar queijos, fumeiro, artesanato, entre outros produtos locais.

A ligação entre Melgaço e o território fronteiriço é explorada de forma particularmente emocionante no Museu Memória e Fronteira. A exposição aborda fenómenos marcantes da história local, como a emigração clandestina e o contrabando, recordando também as chamadas “viúvas de marido vivo” — mulheres que permaneciam na aldeia enquanto os maridos emigravam para outros países em busca de melhores condições de vida.

Queijo, fumeiro e autenticidade

Embora o vinho seja protagonista, a gastronomia local merece igualmente destaque.

Na Queijaria Prados de Melgaço descobrimos uma abordagem pouco convencional à produção de queijo de cabra. As cabras vivem em ambiente tranquilo, ouvindo regularmente música clássica. O resultado, garantem os produtores, são animais mais calmos e leite de maior qualidade. A prova de queijos confirmou que a filosofia parece funcionar.

A região é igualmente conhecida pelos seus excelentes fumeiros, outro dos pilares da gastronomia local.

A Água de Melgaço, produzida no Parque Termal do Peso, é outro dos símbolos da região. Fresca, ligeiramente gaseificada de forma natural e rica em minerais, é uma presença constante à mesa e um complemento perfeito para a gastronomia e os vinhos locais.

Um destino para regressar

Monção e Melgaço são muito mais do que uma região vinícola. São um território onde as lendas convivem com a história, onde as muralhas guardam memórias de resistência e onde o vinho continua a ser produzido por pessoas que conhecem cada videira pelo nome.

A paisagem vinícola é única em Portugal. Os vinhos são de qualidade excecional. E, acima de tudo, existe uma autenticidade cada vez mais rara.

Entre a Festa da Coca, as histórias de Deu-la-Deu e Inês Negra, as adegas familiares e os grandes Alvarinhos, há razões mais do que suficientes para descobrir — ou redescobrir — este fascinante recanto do Alto Minho. 

Onde (gostámos de) dormir

Hotel Rural Convento dos Capuchos

Onde (gostámos de) comer

  • A Tasquinha da Portela, em Melgaço, é uma referência da gastronomia minhota, distinguindo-se pelo ambiente acolhedor e pela valorização dos sabores tradicionais da região. O jantar foi acompanhado por uma seleção de vinhos e espumantes de dois reconhecidos produtores locais de Alvarinho: Dona Paterna e Márcio Lopes.
  • O Restaurante 5 Sentidos é uma excelente montra da cozinha regional contemporânea, onde a criatividade e a tradição se encontram à mesa. A utilização de produtos locais de excelência é complementada por uma criteriosa seleção de vinhos Alvarinho, de entre os quais destacamos os produzidos pelas Quintas de Melgaço.

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