Neste artigo, partilhamos o nosso roteiro em Somiedo, o primeiro parque natural declarado nas Astúrias e um dos mais bonitos de Espanha.

Foram 3 dias muito bem passados, incluindo boa comida, várias caminhadas, paisagens de montanha, lagos de origem glaciar, prados bucólicos, cabanas tradicionais chamadas “teitos”, passeios em povoações autênticas e nada massificadas turisticamente, encontros surpreendentes com alguns habitantes, miradouros de onde observámos de perto abutres e não é que até vimos um urso?

Esperamos que o nosso itinerário o ajude a planear a sua própria viagem e que o adapte aos seus interesses pessoais e tempo disponível. Por outras palavras, que este roteiro seja apenas um ponto de partida para a sua própria viagem à solta!

O nosso roteiro de viagem em Somiedo

Dia 1: Lagos de Saliencia, Villar de Vildas e La Pornacal

Trilho dos Lagos de Saliencia

Começamos a nossa viagem em Somiedo pelos Lagos de Saliencia, porque no dia anterior tínhamos feito a incrível Senda del Oso (Caminho do Urso) cujo ponto de partida fica a apenas 30 km do Alto de La Farrapona, onde tem início o trilho para conhecer estes lagos.

A caminhada dos Lagos de Saliencia (circular, 8 km) é uma das mais espetaculares de Somiedo e permitiu-nos conhecer quatro lagos de origem glaciar, declarados Monumento Nacional, nomeadamente: o Lago de la Cueva, o Lago Almagrera ou La Mina, o Lago Cerveriz e o Lago Calabazosa ou Negro, sempre rodeados de montanhas, pradarias e vaquinhas felizes a pastar.

No final da caminhada, almoçámos no Albergue de Saliencia, perto do Alto de la Farrapona. Fomos parar a este restaurante por acaso e nem imaginávamos que iria ser o melhor de toda a viagem. Destaque para um excelente “entrecot” e para uma sobremesa à base de queijo, frutos do bosque e torrão.

Villar de Vildas

À tarde, dirigimo-nos para o Vale de Pigueña, onde fica a aldeia de Villar de Vildas. A estrada para lá chegar é, por si só, um prazer para os olhos e para o espírito. Por sua vez, Villar de Vildas é merecedora do título de “Aldeia Exemplar das Astúrias”, atribuído pela Fundação Princesa das Astúrias, por se manter tão autêntica, seja ao nível dos costumes, da arquitetura e da valorização da vida rural.

Fizemos o check-in no Hotel Rural La Corte e, quando tivemos de levar as malas para o quarto, foi um espanto e uma risada. Um espanto, porque no pátio de entrada, por baixo de um “hurro” (celeiro tradicional), havia vários porquinhos da índia. Uma risada, porque as escadas de acesso ao quarto, além de muito estreitas e em caracol, eram inclinadíssimas e tivemos de as trepar, um em baixo a levantar as malas com os braços esticados, o outro em cima a puxá-las. Descansámos um pouco no quarto e depois fomos dar uma voltinha pela aldeia, cruzando-nos com alguns habitantes nos seus afazeres diários, passando por vários “hurros” e parando para fazer festas a vários gatinhos.

Trilho até à Braña de La Pornacal

O tempo ameaçava chuva mas, mesmo assim, resolvemos meter os pés ao caminho até La Pornacal, a maior e a mais bem conservada de todas as brandas de Somiedo, onde existem várias cabanas tradicionais com telhados vegetais, chamadas “teitos”.

Entretanto, começou mesmo a chover, nós os dois sozinhos naquele caminho sombrio no meio das montanhas até que apareceu à nossa frente um senhor velhote a falar de um modo esquisito e a dizer palavrões, todo molhado e com sangue na cara. Conseguimos perceber que queria saber se tínhamos rede no telemóvel. Não tínhamos e então perguntou-nos se o podíamos ajudar a puxar o jipe, porque tinha tido um acidente mais à frente. Lá acompanhámos o senhor e, quando chegámos ao local, não percebemos como é que lhe ocorreu que o podíamos ajudar! O jipe tinha uma das rodas da frente toda metida num buraco junto a um muro e só se fossemos super-homens é que teríamos força para o levantar. Lá lhe dissemos várias vezes que era impossível, virou costas, continuando a dizer palavrões, e resolveu dirigir-se à aldeia. Nós continuámos a andar até à Braña de La Pornacal, mas não por muito tempo, porque começou a chover cada vez mais e não tínhamos ido preparados para a chuva.

À noite, jantámos no Hotel Rural La Corte, onde ficámos alojados. O restaurante também funciona como café e, ao final do dia, serve de ponto de encontro aos habitantes da aldeia. Partilhámos um cachopo, um panado gigante típico de Somiedo, com carne de vaca, queijo e presunto. Estava bom, mas era tão grande que não o conseguimos acabar. No final, em conversa com o simpático dono, ficámos a saber que os seus avós eram portugueses e se tinham conhecido nas Astúrias para onde tinham ido trabalhar: ele nas minas, ela como criada. Não nos disse, mas sentimos que ficou feliz por encontrar portugueses.

Dormida

Hotel Rural La Corte, uma casa rural do séc. XIX, totalmente restaurada.

Dia 2: La Pornacal, Pola de Somiedo, La Peral e Miradouro do Príncipe

Trilho até à Braña de La Pornacal

Uma vez que no dia anterior não tínhamos conseguido chegar à Braña de la Pornacal, resolvemos voltar ao trilho, até porque estava bom tempo.

Desta vez a caminhada começou da melhor maneira. Ainda na aldeia, vimos um bezerrinho a correr num campo. Era tão pequeno, dava tantos pulos e corria tão rápido que, ao início, pensei que era um cão. Parámos para o observar durante alguns minutos, e, felizes como ele, seguimos viagem.

O caminho até à Braña de La Pornacal (3,6 km, 1 hora) é sempre a subir, mas custou-nos menos do que no dia anterior: as montanhas pareciam mais verdes, o som do rio Pigueña mais calmante e fomos comendo amoras silvestres ao longo de todo o percurso. O auge estava, porém, guardado para o final quando chegámos a La Pornacal e vimos os “teitos” empoleirados nas montanhas.

Os “teitos” são umas cabanas de pedra com telhados vegetais onde moravam os “vaqueiros de alzada”, pastores transumantes que no verão se deslocavam com o seu gado para as brandas, isto é, para as zonas altas das montanhas, ricas em pastagens e água.

teitos na brana de la pornacal

A Braña de La Pornacal é a maior e a mais bem conservada de todas as brandas de Somiedo. Dos 370 “teitos” registados no parque natural, esta é a que regista o maior número, cerca de 33.

Visitada a branda, andámos mais um pouco e voltámos a ficar maravilhados com o Vale Pigueña, nesta zona muito mais amplo e coberto por vários campos murados, a fazer lembrar uma manta de retalhos.

Apesar do trilho continuar até à Braña de Los Cuartos ou Braña Viecha, uma branda ainda mais antiga do que La Pornacal, decidimos regressar a Villar de Vildas, para chegarmos a tempo de almoçar em Pola de Somiedo.

trilho da branda de la pornacal

Pola de Somiedo

Um amigo tinha-nos recomendado o restaurante Sidreria Parrilla Carión mas, como nesse dia estava fechado, fomos ao El Meirel, onde comemos muito bem.

Depois de almoço, aproveitámos para visitar Pola de Somiedo, a principal povoação de Somiedo e a mais turística mas, ainda assim, bastante pequena e nada massificada.

À entrada da localidade, há um amplo parque de estacionamento onde convém deixar o carro. Depois é um prazer visitar tudo a pé. Atravessámos a pequena ponte de pedra que cruza o rio, constatámos a harmonia entre as casas antigas e modernas, descobrimos gatos e “hurros” nas ruas, enchemos as garrafas de água no fontanário e até fomos surpreendidos por um grupo de vacas e vitelinhos a atravessar a rua principal da povoação com os seus chocalhos como se fosse um cortejo.

pola de somiedo

Perto da igreja, descobrimos duas coisas do outro lado da rua. A primeira foi a padaria que nos deliciaria nas manhãs seguintes, especialmente os croissants de chocolate ainda mornos e as empadas de atum ou “picadillo” (recheio do chouriço antes de ser fumado), que comprávamos a bom preço, para almoçar durante as caminhadas. A segunda foi o início do Trilho Acessível do Parque Natural e Reserva da Biosfera de Somiedo, um percurso pedestre de 2 km (só ida), que resolvemos fazer e que nos permitiu desfrutar de belas paisagens de montanha, no meio de um bosque.

No final, visitámos o Centro de Receção e Interpretação do Parque Natural de Somiedo, onde ficámos a conhecer mais profundamente esta área protegida.

A seguir a Pola de Somiedo, decidimos ainda visitar a aldeia de La Peral e o Miradouro do Príncipe.

La Peral e Miradouro do Príncipe

Antigamente, a branda de La Peral só era habitada durante os meses mais quentes, quando os pastores e o gado subiam ao alto da montanha. Hoje em dia, é uma aldeia com vida onde os moradores, incluindo alguns jovens, se costumam juntar para conversar ao final do dia, calçando “madreñas”, isto é, umas socas de madeira tradicionais das Astúrias, que exibiram orgulhosamente quando o Paulo lhes pediu para tirar uma fotografia.

Quanto ao Miradouro do Príncipe, depois de estacionar o carro na entrada da aldeia, é preciso andar a pé uns 5 minutos até se chegar a esse promontório, situado a cerca de 1.380 m de altura, de onde se tem uma das melhores vistas do Parque Nacional de Somiedo.

madrenas, la peral, somiedo

La Peral também é conhecida como um dos melhores lugares para a observação do urso-pardo, uma espécie em perigo de extinção. Hoje em dia, começa a recuperar e tornou-se um dos símbolos de Somiedo, onde vive o maior núcleo de toda a Europa ocidental.

Não se pense, porém, que estes impressionantes animais são fáceis de avistar a olho nu. Na verdade, se não sabe quando e onde procurá-los, é quase impossível ver algum e a observação é sempre à distância, com a ajuda de binóculos e telescópios. Nós tivemos a sorte de encontrar um simpático casal de franceses apaixonados por estes animais que nos deixaram espreitar pelo seu telescópio para vermos um.

miradouro do príncipe, somiedo

Já ao anoitecer, enquanto passeávamos pela aldeia, um senhor um pouco sinistro e com uma pronúncia esquisita (que nem o Paulo entendia) veio ter connosco e, como é frequente em viagem, pensámos logo que nos vinha pedir alguma coisa. Afinal era apenas um guarda do parque que nos queria dizer que em Gua seria mais fácil avistar ursos.

Depois do sol se por, tempo ainda para jantar em La Peral, no restaurante El D’iban de Somiedo.

Dormida

Um hotel, fora do centro de Pola de Somiedo, chamado L’Ablana. Não sendo mau, obrigava-nos a ir sempre de carro para o centro. Foi, no entanto, o que conseguimos arranjar por não termos reservado alojamento com bastante antecedência. Procurar melhores opções em Pola de Somiedo.

teitos em la peral, somiedo

Dia 3: Valle del Lago, Lago del Valle e Miradouro de Aguino

Trilho entre Valle del Lago e Lago del Valle

No terceiro e último dia de viagem em Somiedo, decidimos fazer o trilho entre a aldeia de Valle del Lago e o Lago del Valle (linear, 6 km).

O Lago del Valle é o maior das Astúrias e, para lá chegar, atravessámos, ao som de chocalhos, o Valle del Lago, um dos mais belos e bucólicos vales de Somiedo, cheio de cavalos, vacas e bezerrinhos a pastar em campos verdejantes. Pelo caminho, também passámos por vários “teitos”, as peculiares cabanas tradicionais de pedra com telhados vegetais, usadas pelos pastores quando percorriam os prados mais altos com os seus rebanhos.

Para não irmos e voltarmos pelo mesmo caminho, optámos, num sentido, pelo caminho da sombra (um caminho de terra batida, entre bosques de faias e avelaneiras) e, no sentido oposto, pelo caminho de sol (o caminho de cimento, pelo meio do vale). Ambos estão perfeitamente assinalados.

O Lago del Vale está encaixado num circo glaciar, rodeado de montanhas que superam os 2.000 metros de altura. Aí chegados, aproveitamos para comer as maravilhosas “empanadas” que tínhamos comprado, de manhã cedo, na padaria de Pola de Somiedo. Depois contornámos relaxadamente o grande lago e, a dada altura, o Paulo apontou excitado para uma encosta onde andavam dois rebecos, uns mamíferos ruminantes que ao início confundimos com veados. Acabámos parados, eles a olhar curiosos para nós e nós para eles. Depois eles foram à sua vida e nós regressámos encantados à aldeia de Valle del Lago e daí a Pola de Somiedo.

Miradouro de Aguino

Depois de darmos mais uma voltinha em Pola de Somiedo, decidimos ir de carro até ao Miradouro de Aguino, situado na estrada que une Pola de Somiedo a Aguino. A via é íngreme e cheia de curvas, mas o miradouro é magnífico. Além de vistas deslumbrantes sobre Pola de Somiedo e a aldeia de Aguino, é um sítio excelente para observar, de perto, abutres e águias reais.

abutre, somiedo

Dormida

Um hotel, fora do centro de Pola de Somiedo, chamado L’Ablana. Não sendo mau, obrigava-nos a ir sempre de carro para o centro. Foi, no entanto, o que conseguimos arranjar por não termos reservado alojamento com bastante antecedência. Procurar melhores opções em Pola de Somiedo.

Mapa do nosso roteiro em Somiedo

Clique no botão “play” para visualizar o mapa com os lugares que visitámos.

Guia prático para visitar Somiedo

Onde fica 

O Parque Natural de Somiedo fica no extremo sul das Astúrias, no norte de Espanha (google maps).

Distâncias de carro

  • Senda del Oso: 30 km
  • Oviedo: 78 km
  • Porto: 500 km
  • Lisboa: 770 km

Quando visitar Somiedo

Na primavera, verão e outono. 

No inverno, a neve é frequente cima dos 1.200 metros. 

lago del valle, somiedo, espanha

Quanto tempo ficar em Somiedo

Na nossa opinião, três dias é o mínimo recomendável para visitar os principais lugares referidos neste artigo, sendo que uma semana permitirá conhecer melhor todo o parque natural.

Como se deslocar em Somiedo

O carro é fundamental para visitar Somiedo, pois só assim conseguirá aceder a todo o lado, num curto espaço de tempo.

Onde dormir em Somiedo

O ideal é montar base em Pola de Somiedo, a principal localidade da zona. Está situada no coração do Parque Natural de Somiedo, tem bons acessos e é onde há maior oferta turística. 

Procurar alojamento em Pola de Somiedo

Dica: é muito importante reservar alojamento com bastante antecedência, porque os poucos alojamentos que existem esgotam rapidamente. 

Gastronomia 

Eis algumas das coisas que poderá provar em Somiedo:

  • Cachopo (um enorme bife de vaca panado com queijo e presunto)
  • Fabada asturiana (feijoada)
  • Pote asturiano ou pote de berzas (guisado de couves, feijão, chouriços e morcelas asturianos)
  • Carne de vaca
  • Pitu caleya (frango de capoeira)
  • Queijos asturianos
  • Cecina (presunto de vaca) e enchidos
  • Tarte de queijo
  • Arroz com leite
  • Sidra

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2 Comentários

  1. António Carlos Jorge

    Olá, Sofia e Paulo.
    Adoro este site! Reportagens de criar água na boca.
    Este site são pedaços de coisas que conquistaram, fragmentos das vossas experiências, enchem as malas dos outros de sonhos. Adoro as vossas aventuras. Bem documentadas, excelentes fotos e muito bem escritas. Parabéns aos dois!

    A propósito da vossa última reportagem (Somiedo), desejava saber se é possível ir de carro de Villar de Vildas à branda de La Pornacal.

    Continuação e boas “Viagens à Solta”.

    • Olá António. Obrigado pelas palavras simpáticas.

      Tecnicamente é possível, mas é proíbido, por isso não pode levar o carro. Tem mesmo de ir a pé 🙂

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