“O mundo muda com o seu exemplo, não com a sua opinião.” (Paulo Coelho)

Estamos no Vale do Côa. Desta vez, não visitaremos as gravuras rupestres que lhe deram fama, mas uma reserva natural privada chamada Faia Brava cuja missão é recuperar e conservar a natureza e a biodiversidade – não com opiniões, mas através da proteção de aves rupícolas ameaçadas e da reflorestação de espécies autóctones.

Na Faia Brava, o rio Côa corre entre montanhas graníticas escarpadas. É uma paisagem de pedra: crua, agreste e severamente seca nesta altura do ano. Quem visitar a reserva autonomamente, verá pouco mais do que isso e é provável que sinta algum desalento.

Rio Côa visto da Faia Brava

Felizmente, nós optámos por fazer duas visitas guiadas, disponibilizadas pela Associação Transumância e Natureza (ATNatureza), a qual criou e mantém a Faia Brava. A primeira visita foi a pé, pelo Trilho dos Biólogos, na companhia do biólogo João Neves e a segunda de todo-o-terreno, acompanhados pelo guia Marco Ferraz. Graças a eles, qualquer desilusão inicial que possamos ter sentido em relação à Faia Brava transformou-se em profunda admiração.

A admirável loucura de um grupo de biólogos

O Trilho dos Biólogos é um percurso pedestre circular de 2,2 km, noutros tempos percorrido por pastores e rebanhos. O ponto mais bonito do trajeto é o Miradouro da Minhoteira, de onde se avista a impressionante paisagem das encostas do Côa, onde o rio corre no fundo de escarpas rochosas. Localmente – explica-nos o João – estas escarpas designam-se por faias. Faia Brava é o nome daquela em particular (enquanto aponta para uma arriba ao longe) onde nidificam algumas espécies de aves rupícolas ameaçadas, entre as quais o britango e a águia de Bonelli.

Para conservar essas aves no vale do Côa, no ano 2000 um grupo de biólogos fundou a ATNatureza e comprou a propriedade onde se situava a dita escarpa. Nascia assim a Faia Brava, a única Área Protegida Privada (APP) do nosso país.

Se a aquisição de um terreno (apenas) para salvar umas aves não fosse loucura suficiente, a ATNatureza foi comprando as parcelas agrícolas abandonadas à volta, exclusivamente para criar espaços para a natureza.

A aquisição dos terrenos não foi fácil. Havia terras sem donos conhecidos e terras com mais do que um dono. Havia donos de terras que não as queriam vender, donos que desejavam enriquecer graças a elas e donos com ligações afetivas às mesmas, alguns dos quais ainda as trabalham.

Mesmo assim, depois de inúmeras negociações, a ATNatureza conseguiu comprar mais de 150 propriedades privadas e hoje a reserva compreende 1000 hectares – 700 na margem direita e 300 na margem esquerda do Côa – ao longo de 5 km de rio.

Se a compra dos terrenos foi um processo difícil, o seu restauro ecológico é ainda mais desafiante.

Na sua admirável loucura, os biólogos querem transformar aqueles montes de pedra no que eram antes da intervenção humana, ou seja, querem renaturalizá-los, para que todas as espécies de fauna e flora possam voltar a viver em equilíbrio.

Por incrível que pareça, todas aquelas encostas do Côa já estiveram cobertas por searas. Contudo, a partir dos anos 60, muitas pessoas, cansadas de uma vida tão dura, trocaram o campo pela cidade e emigraram, sobretudo para França. Por esse motivo, os terrenos agrícolas mais difíceis como os da Faia Brava, dominados por afloramentos rochosos e escarpas de grande declive, ficaram assilvestrados.

“Um dia queremos que toda a reserva seja como a Amazónia”

Enquanto caminhamos, o João vai-nos chamando a atenção para a flora envolvente. Embora haja pouca vegetação, reconhecemos algumas espécies como o rosmaninho, giestas e azinheiras, enquanto outras não identificaríamos sozinhos, como cornalheiras, pilriteiros e zelhas. Observamos ainda algumas parcelas de olival tradicional com muros de pedra que ficaram dos antigos terrenos de cultivo.

Para além dessas espécies, os biólogos querem que, na Faia Brava, voltem a crescer árvores autóctones como o sobreiro e o zimbro, para potenciar a biodiversidade e reduzir o risco de incêndio.

Um dos símbolos da reserva é precisamente um sobreiro monumental, uma árvore linda que sobreviveu devido à sua localização junto a um muro. Caso estivesse no meio de um campo agrícola, certamente teria sido abatido como outros, que hoje também seriam majestosos.

Sobreiro monumental na Faia Brava

Ao contrário do abate, a reflorestação de espécies autóctones na reserva é um processo extremamente lento, devido à seca e à pobreza do solo, na sequência daqueles anos de agricultura e pastagem intensivas, de fogos e abandono. É tão difícil que, apesar de toda a dedicação, a taxa de sucesso é de apenas 10%.

Parámos para observar um cocó. Está duro como pedra, porque – como nos explica o João – o solo, nesse local, está tão pobre e seco que nem sequer há insetos. Por isso, também não servirá para o fertilizar.

Entretanto, passamos por algumas charcas criadas para aproveitar as águas das chuvas. Estão secas. Sinto um nó na garganta, porque, apesar da boa vontade dos biólogos, temo que um destes dias seja demasiado tarde para a natureza se conseguir regenerar.

Apesar de todas as dificuldades, os técnicos da ATNatureza não desistem: nem do presente nem do futuro. Para envolverem as gerações mais novas no processo de conservação da natureza, trabalham com alunos no viveiro florestal, de onde saem as árvores que também reflorestarão juntos. Além disso, recebem visitas de estudo e, no verão, organizam acampamentos para jovens e fazem a vigilância de incêndios com a ajuda de voluntários.

Como defende a Nature for Change (outra associação de defesa ambiental), para salvar a natureza, temos de deixar as nossas crianças brincar à chuva, na natureza, nas montanhas, nas florestas, nos rios. Dessa forma, elas criarão memórias felizes e quererão sempre protegê-la.

“Um dia queremos que toda a reserva seja como a Amazónia” – diz-nos o Marco a sorrir, explicando-nos que chamaram àquela zona, onde vemos a maior concentração de árvores na Faia Brava, monte da Amazónia.

Monte da Amazónia

“Alguma coisa boa devem andar lá a fazer”

Para além da reflorestação, a ATNatureza quer garantir alimento às grandes aves rupícolas que planam sobre o Côa. Para isso, recuperou alguns pombais tradicionais, de modo a aumentar a população de pombos-das-rochas, uma importante presa da avifauna rupícola. Além disso, introduziu na reserva cavalos garranos e vacas maronesas (as espécies mais próximas dos herbívoros selvagens que habitaram esta região e que se podem ver, por exemplo, nas gravuras do Côa), porque esses animais eliminam o mato rasteiro e criam clareiras que se, por um lado, funcionam como corta-fogos, por outro lado, tornam mais visíveis outras presas das rupícolas, nomeadamente coelhos-bravos e perdizes.

Durante a visita de todo-o-terreno, o Marco emprestou-nos binóculos para observarmos as aves com mais pormenor e percebermos as suas diferenças. Levou-nos a ver umas pinturas rupestres. E percorreu a reserva de norte a sul, para nos mostrar as manadas, pois sabe que esse é o momento alto para a maioria dos visitantes. Infelizmente não as encontrou, mas nós sabemos que a reserva não é um jardim zoológico e não as ver só comprova o quão livres são. Além disso, não é que tenhamos ido embora sem ver nada: vimos alguns grifos, uma águia real, um boi (o único com um corno torto), três perdizes e, já perto do fim, dois jovens garranos. O momento alto para nós foi, porém, um encontro com um javali distraído que parece ter ficado tão espantado como nós por se ter aproximado tanto de humanos.

Apesar das vantagens trazidas pelos garranos e pelas vacas, a sua introdução na reserva não é consensual, como não o é a limpeza de silvas, a poda de árvores, as espécies que se devem replantar – em suma, discute-se até que ponto se deve intervir na natureza. Numa coisa todos concordam, todavia: quando a natureza já não é capaz de se reabilitar sozinha, é preciso dar-lhe uma ajuda.

A natureza ainda não recuperou totalmente e os ecossistemas ainda não estão em equilíbrio na Faia Brava. Todavia, passados vinte anos desde a sua criação, o número de aves rupícolas aumentou no vale do Côa e, desde 2006, que não há qualquer incêndio na reserva. Como reconhecem mesmo os seus vizinhos mais céticos: “alguma coisa boa devem andar lá a fazer”.

Guia prático para visitar a Faia Brava

Como visitar a Faia Brava

  • Em autonomia | Percorrendo (a pé ou de bicicleta):
    • O Trilho dos Biólogos (2,2 km, circular, fácil);
    • A Grande Rota do Vale do Côa, na parte que atravessa a reserva.

Ambos os trilhos estão bem marcados e cuidados e podem ser iniciados na entrada sul da reserva, junto à estrada M607.

  • Com um guia:
    • Caminhada Trilho dos Biólogos;
    • Safari Todo-o-Terreno.

Preços, duração e mais informações sobre as visitas guiadas aqui e contactos para fazer as marcações aqui.

Na nossa opinião, visitar a Faia Brava com um guia é uma mais-valia, porque se vê para além da paisagem. Terá a oportunidade de aprender sobre as invisíveis relações de interdependência entre os seres vivos, de conhecer um exemplo real para salvar a natureza e de ver o trabalho realizado na reserva. Além disso, também estará a dar o seu contributo, uma vez que o lucro das visitas reverte a favor da conservação deste espaço único.

Outras formas de apoiar o trabalho da ATNatureza são tornar-se sócio, envolver-se como voluntário ou fazer um donativo. Está tudo explicado aqui

Lapas cabreiras, Faia Brava
Pinturas rupestres, no Abrigo das Lapas Cabreiras, visitadas durante o safari todo-o-terreno na Faia Brava

Onde (gostámos de) comer

  • Casa da Esquila, Casteleiro, Sabugal | Nas palavras dos próprios, é “um misto de cozinha de lavradores, regional e gourmet“. O restaurante tem duas salas: a de buffet e a de gourmet. Nós optámos pela segunda e só podemos dizer que foi uma verdadeira experiência gastronómica, completamente inesperada num meio rural!
  • Restaurante Robalo, Sabugal | Especialidade: gastronomia regional, como cabrito assado no forno de que gostámos bastante (não aceitam reservas);
  • Restaurante Colmeal | O restaurante do Colmeal Countryside Hotel, com consultoria do Chef Vítor Sobral que imprimiu alguma criatividade numa cozinha tradicional de conforto;
  • Restaurante do Côa Museu | Um espaço com uma vista magnífica sobre a paisagem da foz do Côa. Especialidade: gastronomia regional acompanhada pelos vinhos do Douro Superior.

Onde (gostámos de) dormir

Colmeal Countryside Hotel | Uma aldeia resgatada ao abandono que nos proporcionou o silêncio necessário para nos desligarmos do mundo e nos ouvirmos a nós próprios e ao que realmente importa. Eu ouvi, por exemplo, que a pandemia nos roubou alguma liberdade, mas (ainda) é possível refugiar-nos na natureza e em lugares improváveis.

Que a Covid-19 sirva, como todos os momentos maus, para fazermos uma pausa, para repensarmos a forma como vivemos (e viajamos) e para percebermos o que é essencial: não só para nós, mas também para as gerações futuras.

O que visitar nas proximidades

A 5 minutos

  • Ponte da União
  • Trilho desde o miradouro acima da Ponte da União até à aldeia de Cidadelhe | Distância: 1,8 km (3,6 km, ida e volta)

A 30-35 minutos

A 40-50 minutos

  • Museu e gravuras do Côa
  • Miradouro Anjo São Gabriel (vista para a aldeia de Castelo Melhor)
  • Aldeia histórica de Almeida
  • Miradouro de Santo André das Arribas (no caminho, também se pode visitar a Torre Romana de Almofala)
  • Barca d’Alva e passeio de barco no Douro Internacional

Visitámos a Faia Brava no fim-de-semana prolongado de 3 a 5 de outubro de 2020, a convite da inature, uma marca territorial que integra 12 áreas naturais da região Centro de Portugal e que assenta em princípios com os quais nos identificamos, nomeadamente a valorização e consolidação do Turismo de Natureza, em prol da sustentabilidade ambiental, social e económica dos territórios que representa. É cofinanciada pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), através do Programa Operacional Regional do Centro – CENTRO 2020, Portugal 2020 e União Europeia, via PROVERE.”

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One Comment

  1. Bravo pelo trabalho singular de AtMnatureza , A faia lugar fantastico entre o testemunho do nosso antepassado prehistorico e a natureza. Desde 1999 quando descobri as pinturas/gravuras rupestres que considero como o melhor lugar a visitar de Portugal.

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