A Mata do Buçaco, além de guardar um importante património cultural, é uma das maiores reservas de biodiversidade de Portugal, onde existem cerca de 250 espécies de arbustos e árvores, muitas delas seculares. É, pois, um refúgio não só para diversos animais, que nela encontram abrigo e alimento, mas também para quem quer relaxar e aproveitar a natureza.

As minhas palavras conduzir-te-ão à Mata do Buçaco, um lugar cheio de árvores, muitas delas plantadas por monges nos séculos XVII e XVIII. Esses monges chamavam-se Carmelitas Descalços – não porque andassem sem calçado, mas porque viviam despojados de bens. À volta da mata, que receberam do bispo de Coimbra em 1628, levantaram uma cerca para se afastarem do mundo e se aproximarem de Deus.

É por uma das portas abertas no alto muro de pedra que ainda rodeia a Mata do Buçaco que vamos entrar no mundo das árvores.

Mata do Buçaco

Durante dois séculos, os Carmelitas Descalços viveram em clausura e penitência dentro desse lugar isolado e virgem a que chamaram “deserto”. Aí foram construindo diversas estruturas austeras e simples – um convento, ermidas de habitação, capelas e até uma Via Sacra – usando, para tal, os recursos naturais disponíveis. Além disso, foram reflorestando o bosque original com cedros-do-Buçaco, um cipreste trazido do México, que se viria a tornar a espécie arbórea mais “célebre” da mata, dado que foi a primeira exótica introduzida.

Manhã cedo, enquanto caminhamos sozinhos pela floresta seguindo o Trilho da Água, vamos observando longos cedros-do-Buçaco, assim como alguns carvalhos, azereiros e loureiros que restam e descendem da floresta original. Contemplamos os raios de sol que os atravessam e ouvimos numerosas espécies de aves.

Fora os monges

Em 1834, foi decretada a extinção das ordens religiosas em Portugal e os Carmelitas Descalços tiveram de abandonar o Buçaco. Sob a Administração Geral das Matas do Reino, foram então construídos diversos jardins, fontes e lagos, ao mesmo tempo que se introduziram muitas espécies exóticas como cedros, sequóias, araucárias, eucaliptos, entre outras.

Continuando a andar, chegamos a três das principais atrações do Buçaco dessa época: os Lagos Grande e Pequeno; a Fonte Fria, a mais majestosa, cuja água corre entre duas escadarias de pedra; e, por último, o Vale dos Fetos, uma zona de sombra onde nos admiramos com o tamanho de vários fetos de porte arbóreo. Depois de atravessarmos o vale, seguimos em frente e é então que descobrimos as árvores mais majestosas que vimos no Buçaco, designadamente sequóias e um eucalipto gigante, a árvore mais alta de toda a mata, ultrapassando os 70 metros!

Um hotel como nenhum outro

Finalmente, em 1888, iniciou-se a construção de um palácio real para a rainha D. Maria I, mesmo ao lado do Convento de Santa Cruz. As obras ficaram concluídas em 1907 mas, dada a conjuntura do país, o palácio acabou por ser convertido em Hotel de Luxo: o Palace Hotel do Bussaco.

Eis que chegamos ao Palácio do Buçaco, o qual parece ter saído de um conto de fadas. Contornámo-lo para admirarmos os seus arabescos neomanuelinos e, no fim, descansamos um pouco junto aos canteiros de buxo do Jardim Novo, construído à volta do hotel e do convento em 1886-87.

Vista do Palace Hotel do Bussaco

O clímax florestal

O Palace Hotel é tão vistoso que consegue enfeitiçar a maioria dos visitantes, ofuscando quase tudo à sua volta. Eu própria já tinha ido ao Buçaco anteriormente e só havia visitado o hotel e pouco mais. Já sabes, porém, que a riqueza do Buçaco não se reduz a ele – e ainda nem te levei ao Adernal, um tesouro natural para muitos desconhecido e a zona de que mais gosto na mata.

Para lá chegarmos, vamos seguir o Trilho da Floresta Relíquia, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Pelo caminho, passamos pelas Portas de Coimbra, a entrada principal na época dos Carmelitas Descalços, de onde se tem uma vista desafogada sobre a paisagem envolvente e, já no regresso, encontramos o Cedro de S. José, o mais antigo de Portugal e, provavelmente, da Europa.

A Floresta Relíquia ocupa cerca de 15% da Mata do Buçaco e localiza-se no extremo sudoeste, na zona mais alta, íngreme e rochosa da serra. Por esse motivo, escapou à plantação de espécies arbóreas exóticas, conservando as características típicas da floresta primitiva, antes da ocupação humana.

Enquanto caminhamos no bosque denso, identificamos carvalhos, loureiros, medronheiros, azevinhos, sobreiros e pinheiros mansos. São, no entanto, os adernos, um emaranhado de árvores unidas num abraço verde, que nos deixam maravilhados. Vemo-los, pela primeira vez, ao final da manhã e gostámos tanto que, à tarde, voltamos para os observar, agora envoltos pelo nevoeiro, sentindo-nos mais perto, se não de Deus, do mistério que nos transcende.

O Adernal representa uma grande parte da Floresta Relíquia, estendendo-se até ao Miradouro da Cruz Alta, o ponto mais elevado da Serra do Buçaco. Com exceção de umas escadinhas de pedra que o atravessam, é uma área quase intocada pelo homem, tão rara e única que é imediatamente reconhecível.

O angustiante Pinhal do Marquês

Já só me falta levar-te a um outro tipo de paisagem existente na Mata do Buçaco: o antigo Pinhal do Marquês da Graciosa. Ocupa 15 hectares e foi uma das últimas áreas a ser integrada na mata, em finais do séc. XIX. Apesar do nome, atualmente restam poucos pinheiros, devido à praga que os dizimou em finais de 2010. Por causa disso e da passagem de um ciclone em 2013, esta zona ficou dominada por plantas exóticas invasoras. Hoje em dia, encontra-se em reconversão, com eliminação das invasoras e plantação de espécies autóctones, de modo a potenciar a biodiversidade e reduzir o risco de incêndio.

Reentramos na mata pela Porta de Serpa, dirigindo-nos à Cruz de Vopeliares. Depois de tudo o que já vimos no Buçaco, este pinhal invadido por acácias e mimosas desilude-nos e entristece-nos. Em comparação com o resto da mata faz-nos, no entanto, perceber a importância da proteção e conservação da natureza.

Se assim não for, em breve só haverá, no nosso país, quer invasoras quer monoculturas desoladoras e altamente inflamáveis de pinheiro-bravo e eucalipto, como as que vemos ao redor da mata e no longo caminho até casa.

Guia prático para visitar o Buçaco

Localização

A Mata do Buçaco situa-se no extremo noroeste da Serra do Buçaco, no concelho da Mealhada, centro de Portugal.

  • Distância de Coimbra | 36 min (32,5 km)
  • Distância do Porto | 1 h 11 min (110 km)
  • Distância de Lisboa | 2 h 19 min (232 km)

Horários e preços

A mata pode ser visitada diariamente entre as 9h e as 18h (aos fins de semana e feriados, até às 18h30). A entrada é gratuita, desde que seja feita a pé (para entrar de carro, é necessário pagar 5 euros).

As visitas guiadas ao convento, jardins e mata variam entre os 5 e os 7 euros por pessoa, mediante agendamento prévio.

Informações atualizadas no site oficial: www.fmb.pt

Mapa da Mata

Para não se perder nos 105 hectares de floresta, pode descarregar o mapa da autoria da Fundação Mata do Bussaco ou comprar um na Loja da Mata, situada perto do Palace Hotel.

Percursos pedestres

Toda a mata é deslumbrante e excelente para caminhadas. Como referimos, nós fizemos o Trilho da Água e o Trilho da Floresta Relíquia mas, no total, há quatro percursos pedestres assinalados, podendo também criar os seus próprios caminhos. São eles:

  • Trilho da Água | Circular, 3,3 km, 3h, dificuldade média. Ponte de partida: nós começámos na Porta de Serpa;
  • Trilho da Floresta Relíquia | Circular, 2km, 2h, dificuldade média. Ponto de partida: nós começámos no convento;
  • Trilho Via-Sacra | 3h, dificuldade média;
  • Trilho Militar | 3h, fácil.

Dicas:

  • Se quiser visitar o Adernal (inserido no Trilho da Floresta Relíquia) evitando uma subida bastante acentuada, poderá ir de carro até ao Miradouro da Cruz Alta e daí descer um pouco a pé para o espreitar.
  • Se gosta de sossego, aos fins-de-semana e feriados evite a zona central do hotel e opte por fazer um dos três últimos trilhos. Isso será suficiente para estar sozinho a maioria do tempo, podendo sentir serenamente a floresta, sem barulho nem confusões.

Onde (gostámos de) dormir

Grande Hotel do Luso | Este hotel de 4 estrelas situa-se na vila termal do Luso, muito perto da Mata do Buçaco, dando inclusive para ir a pé. Uma vez na vila, é impossível não o ver de tão imponente que é. De resto, é tudo grande: desde a receção, ao quarto, à sala de refeições, ao ginásio, já para não falar da gigantesca piscina exterior e do facto de haver várias salas de estar. Poderia ser grande, mas não ser grande coisa, mas é verdadeiramente bom.

Devido à pandemia, há dispositivos para desinfetar as mãos em todos os lugares-chave e o buffet de pequeno-almoço e demais refeições está protegido por painéis transparentes de acrílico. Cada hóspede indica o que deseja e é servido individualmente quantas vezes quiser.

Onde (gostámos de) comer

  • Grande Hotel do Luso | Ficamos alojados em regime de meia-pensão e o buffet de jantar não desiludiu nem em termos de variedade nem de sabor;
  • Pedra de Sal | Este pequeno restaurante no Luso não é barato, mas vale bem o dinheiro gasto. Gostámos de tudo o que comemos, com destaque para o “chuleton maturado” que escolhemos como prato principal;
  • Rei dos Leitões | O nosso restaurante preferido na Mealhada.

Não deixe de provar:

  • Morgado do Buçaco, um doce à base de noz cuja receita é segredo;
  • Água do Luso;
  • Leitão e vinho da Bairrada.

Mais natureza nas proximidades

  • Grande Rota do Bussaco | Um percurso pedestre e de BTT, com 56 km de extensão, que liga Mealhada, Mortágua e Penacova, tendo como epicentro a Mata Nacional do Buçaco;
  • PR2 – Na Rota dos Moinhos do Buçaco | 10,5 km, 3h30, circular, difícil;
  • PR5 – Livraria do Mondego | 11,7 km, 4h, circular, difícil. Em alternativa, poderá fazer o Percurso Interpretativo da Livraria do Mondego (800 metros) para admirar esta formação rochosa esculpida pelo rio Mondego ao longo de mais de 400 milhões de anos, cujo nome se deve à semelhança com a disposição de livros numa estante. Ou poderá ainda esperar até junho de 2021, quando se prevê que sejam inaugurados uns passadiços na zona;
  • Praia Fluvial do Vimieiro | Considerada um dos locais mais agradáveis de lazer em Penacova, estava em obras quando a visitamos em setembro. Ainda assim, é um lugar bucólico com uma fantástica passagem pedonal rente ao rio. Destaque também para o restaurante que aí existe, o Vimieiro – Food Drinks & Friends, cuja comida é tão boa quanto o ambiente e a vista.
Livraria do Mondego
Livraria do Mondego

Visitámos o Buçaco no fim-de-semana de 26 e 27 Setembro 2020, a convite da inature, uma marca territorial que integra 12 áreas naturais da região Centro de Portugal e que assenta na valorização e consolidação do Turismo de Natureza, em prol da sustentabilidade ambiental, social e económica dos territórios que representa. É cofinanciada pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), através do Programa Operacional Regional do Centro – CENTRO 2020, Portugal 2020 e União Europeia, via PROVERE.”

Nota | Mas afinal é “Buçaco” ou “Bussaco”? A grafia atual, logo correta, é Buçaco. O Palace Hotel do Bussaco e a Fundação Mata do Bussaco mantiveram, porém, a grafia antiga. Por isso, optámos igualmente por essa grafia nesses dois casos.

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