Há muitos anos que os vejo: ora parados na Praça do Comércio, ora a acelerar em direção ao castelo e aos miradouros de Lisboa, ora a transportar estrangeiros sorridentes pelas calçadas trepidantes do centro histórico.

Ruidosos e fumarentos no passado, hoje têm motores elétricos e movem-se praticamente em silêncio. Mesmo gostando mais deles assim, sempre pensei que os tuk tuk eram para os turistas, não para mim, que moro em Lisboa há mais de dez anos.

Acontece que, passado algum tempo, deixamos de ver a nossa cidade. Como escreveu Martha Medeiros, na pressa de não chegar tarde ao trabalho e a casa, de cumprir horários e obrigações, permanecemos cegos diante do que há de belo à nossa volta. No estrangeiro, observamos com atenção uma igreja, uma praça, um edifício, uma porta, uma árvore. Somos sensíveis à beleza e aos pormenores encantadores. Na nossa cidade, pelo contrário, deixamos de ver poesia.

Um dos benefícios das viagens é, segundo a escritora brasileira, ver o mundo com um olhar novo e inspirado. Outro é perceber que podemos ser viajantes todos os dias, em qualquer lugar, incluindo onde se mora. Como? Comprometendo-nos com o que ela chama de “encantamento contínuo pela vida”. Contudo, para isso, às vezes precisamos de uma sacudidela ou de uma ajudinha. A minha foi um convite do Mário Faria, gestor da empresa Sardinha do Bairro, para fazer um passeio de tuk tuk em Lisboa.

Encontrámo-nos com o Mário no Campo de Santa Clara onde nos esperava num tuk tuk com uma cobertura transparente para não perdermos nada. Mal partimos, explicou-nos porque é que o largo tinha esse nome – facto que desconhecíamos, como ignorávamos tantos outros factos e histórias que nos contou sobre a cidade onde vivemos.

Levou-nos depois por algumas das zonas de que mais gosto em Lisboa, como os bairros da Graça e Alfama, a Baixa Pombalina, o Chiado, o Príncipe Real, o Cais do Sodré. Mostrou-nos sítios que já conhecíamos, como o Largo da Graça, o Miradouro da Senhora do Monte, as Portas do Sol, a Sé de Lisboa, a Praça do Comércio, o Largo do Carmo, o Miradouro de São Pedro de Alcântara, o Mercado Time Out, a Ribeira das Naus – mas também nos conduziu a lugares que desconhecíamos como a Villa Berta, o Teatro Romano, o Largo das Flores e os Terraços do Chiado.

Enfim, foi preciso andar num tuk tuk para voltar a ver Lisboa e para recuperar o encantamento pela vida. Sim, é possível readquiri-lo – mesmo na nossa cidade e mesmo nestes tempos difíceis dominados pelo coronavírus.

De acordo com Martha Medeiros, “Poesia serve exatamente para a mesma coisa que serve uma vaca no meio da calçada de uma agitada metrópole. Para alterar o curso do seu andar, para interromper um hábito, para evitar repetições, para provocar um estranhamento, para alegrar o seu dia, para fazê-lo pensar, para resgatá-lo do inferno que é viver todo santo dia sem nenhum assombro, sem nenhum encantamento.” Ora, passear de tuk tuk em Lisboa, por muito insignificante que possa parecer, para mim serviu exatamente para isso.

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